Grécia assumiu presidência rotativa da UE

Miséria encapotada

Os mais altos responsáveis da UE foram a Atenas entregar por seis meses a presidência da UE à Grécia. As declarações oficiais, entre a chantagem e o delírio, contrastam com a devastação económica e social que varre o país.

O desemprego oficial cifra-se em 27,8 por cento da população activa

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Pela quinta vez desde que o país aderiu à União Europeia, em 1981, um governo helénico assumiu, na quarta-feira, 8, a presidência rotativa do chamado espaço comum europeu, formalidade que perdeu importância desde a criação do Conselho Europeu, actualmente presidido por Herman Van Rompuy. Ainda assim, e temendo que os protestos contra a miséria que grassa no país fruto da imposição de dois programas ditos de resgate financeiro, num total de 240 mil milhões de euros, ofuscasse as cerimónias, o executivo formado pelo Partido Nova Democracia e pelo Partido Socialista (PASOK) sitiou Atenas.

Um contingente adicional de 2500 polícias foram destacados para a capital, a circulação rodoviária sofreu sérios constrangimentos e toda e qualquer manifestação foi proibida entre as seis da manhã e a meia noite. Não obstante, organizações políticas e sindicais contrariaram a imposição que o Partido Comunista da Grécia considerou um ataque ao crescente e maioritário movimento popular de oposição às política do governo e da UE, as quais, acusou ainda, só respondem aos interesses do grande capital.

A acção de massas terminou em confrontos quando forças anti-motim cumpriram a ordem governamental e impediram que a jornada acabasse junto ao parlamento, noticiaram a Lusa e a PressTV.

Quanto às declarações oficias, sobressai a discrepância dos discursos do primeiro-ministro, Antonis Samaras, e do presidente da Comissão Europeia (CE), Durão Barroso, com a realidade do país. Em conferência de imprensa conjunta, citada pela Lusa, Samaris realçou que «o país deixa a crise para trás», enquanto que Durão Barroso falou de uma «Grécia moderna» com «grande contributo a dar à Europa», afirmou que, pese embora «as nuvens no horizonte», o país «está a sair da recessão e a atingir um excedente orçamental» e antecipou um ano de 2014 «melhor do que os anteriores».

O presidente da CE estendeu mesmo os seus vaticínios considerando que a UE está «a emergir da recessão» e teceu elogios aos resultados observados na Irlanda, em Portugal, e em Espanha, os quais qualificou como positivos, culminando com a repetição dos apelos do costume para que a Grécia cumpra o programa acordado com a troika, pois «não é tempo para desacelerar reformas» desperdiçando «os esforços feitos até agora».

Durão Barroso referia-se à aplicação de mais carga fiscal e à concretização do programa de privatizações previsto, e nesta matéria não foi o único a insistir na chantagem. Dia 11, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, adensou a pressão instando a Grécia a cumprir os seus compromissos e a prosseguir as «reformas», garantindo que não só receberá as transferências da troika ainda pendentes, como poderá receber «algo mais» após 2015.

Contra factos...

No mesmo dia, o ministro das Finaças grego veio, no entanto, advertir que é demasiado alta a fasquia imposta pela troika nas negociações que decorrem em torno do cumprimento dos pressupostos do segundo resgate. Em entrevista ao Financial Times, Yannis Stournaras não sustenta a sua apreciação nas consequências económicas e sociais da imposição de sucessivos pacotes de austeridade às vítimas do costume, mas no facto de «no parlamento grego a maioria [da coligação governamental] ser «muito estreita» (153 deputados num total de 300), impedindo, em seu entender, que se façam «determinadas coisas».

Previa-se que os agentes da CE, do Banco Central Europeu e do FMI chegassem à Grécia dia 27 de Janeiro para iniciarem a revisão trimestral às contas públicas, auditoria adiada desde o Outono passado. O diário Kathimerini especulou, entretanto, que a «visita» poderia ser postergada pela terceira vez, desta feita para o dia 17 de Fevereiro. Em causa estão as medidas para superar o défice fiscal grego para este ano, estimado entre os mil e os 1,5 mil milhões de euros, e para o ano de 2015, calculado entre os dois e os três mil milhões de euros, termos sem os quais a Grécia não receberá nem mais um tostão.

Outros dados a contrariarem os discursos «optimistas» de Antonis Samaras e Durão Barroso surgiram em simultâneo com a tomada de posse da presidência da UE por parte da Grécia, nomeadamente a confirmação de que o país se encontra no sexto ano consecutivo de recessão e que a dívida pública ascende já a 176 por cento do PIB.

Acresce que as pensões e salários contam com uma desvalorização média acumulada de 40 por cento relativamente a 2009 – ao que se poderão somar, até ao final deste ano, novos cortes nas pensões e complementos de reforma entre os 20 e os 70 por cento, de acordo com um estudo divulgado pelo diário The Press Project –; a produção industrial acumula uma queda de 30 por cento face a 2008, e o desemprego atinge mais de um em cada quatro trabalhadores.

Segundo a autoridade estatística grega, o desemprego oficial atingiu em Outubro de 2013 os 27,8 por cento, mais do dobro da média registada na zona euro (12,1 por cento), e um recorde absoluto no país em tempo de paz.

Entre os jovens, a taxa é de 58 por cento, igualmente mais do dobro do observado seis anos antes – 23 por cento. São mais 1,39 milhões de pessoas em idade activa sem posto de trabalho.

 

Aumenta fosso entre ricos e pobres

A desigualdade social na Grécia não pára de crescer, constatou um estudo apresentado no dia 8 pelo economista Lefteris Tsulfidis, para quem «foi evidente a deterioração da posição do Trabalho em comparação com a do Capital». De acordo com a pesquisa, a proporção entre os rendimentos disponíveis dos 20 por cento mais ricos e dos 20 por cento mais pobres passou, entre 2009 e 2012, de 5,6 para 6,6 por cento.

Segundo a Prensa Latina, Tsulfidis também confirmou que os cortes nos salários, pensões, reformas e prestações sociais, o aumento dos impostos e a diminuição e as restrições impostas nos serviços públicos provocou, no mesmo período, o aumento da pobreza.

A crescerem, afirmou o professor da Universidade da Macedónia, só o património pessoal dos milionários com fortunas superiores a 30 milhões de dólares, que em 2010 eram 445, e em 2013 são 505. O total de activos destes totalizam 60 mil milhões de dólares, revelou, o que sugere um aumento de 20 por cento face a 2012, representando 24 por cento do PIB da Grécia.




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