Mandela
A luta libertadora do povo sul-africano continua
Morreu Nelson Mandela, símbolo da heróica luta do povo sul-africano pela sua libertação, «um dos maiores revolucionários do século XX» como se lhe referiu o Partido Comunista da África do Sul no seu sentido elogio fúnebre. A sua memória perdurará para sempre entre os explorados e oprimidos de todo o mundo que, na exaltante história da sua vida de coragem e de amor ao povo, encontrarão redobrados motivos de confiança na possibilidade de, com a sua luta persistente e organizada, derrotar mesmo os inimigos mais poderosos e cruéis, como o foi o regime do apartheid.
Mas esta memória há que defendê-la e preservá-la. Porque ela é bandeira para uma luta que continua e continuará até à completa abolição da exploração do homem pelo homem. Porque outros, a começar precisamente por muitos dos que mais o perseguiram e caluniaram, estão empenhados num sórdido espectáculo de hipocrisia, procurando tirar proveito político da sua colagem ao imenso prestígio de Mandela e transformar o seu nome querido de amplas massas em bandeira sua e desse modo ocultar e branquear as posições políticas e ideológicas mais reaccionárias.
No que nestes dias de luto foi escrito e dito na comunicação social dominante salta à vista o esforço para ocultar, ou no mínimo menorizar, aspectos relevantes do percurso revolucionário e do pensamento de Mandela. Porquê passar completamente em silêncio a presença do Partido Comunista Sul-Africano na vida de Mandela e que foi com Joe Slovo, mais tarde Secretário-geral do PCSA, que criou a «Lança da Nação», o braço armado do Congresso Nacional Africano? Evidenciando em Mandela apenas o que consideram «aceitável» e procurando reduzir a sua estatura de revolucionário à de um simples «humanista» e «conciliador», as classes dominantes, ao mesmo tempo que alimentam a ideologia da colaboração de classes, parecem implorar que lhes venham a ser perdoados amanhã os crimes que estão a cometer hoje.
Na espantosa avalanche de mensagens, declarações, artigos de opinião, entrevistas, não é fácil encontrar a voz de comunistas, revolucionários e progressistas. O domínio das vozes da direita, da social-democracia, dos principais expoentes do imperialismo é arrasador e sem vergonha a hipocrisia que exibem. Veja-se o caso de Cavaco e Silva; as tentativas para justificar o voto do seu governo na ONU em 1987, invocando o recurso à luta armada pelo ANC para recusar a condenação do regime do apartheid, torna ainda mais grave o seu comportamento, já que a Constituição portuguesa «reconhece o direito dos povos à insurreição contra todas as formas de opressão». Mas atente-se sobretudo no descaramento dos principais dirigentes imperialistas, actualmente empenhadas num violento processo de recolonização planetária, fazendo precisamente aquilo que Mandela sempre condenou, e recorrendo a todo o tipo de violências e agressões para tentar inverter a roda da história. Descaramento que é particularmente insolente e pérfido em relação ao imperialismo norte-americano hoje particularmente activo na desestabilização do continente africano, na imposição de governos títeres que facilitem a pilhagem dos recursos naturais e a livre exploração das suas multinacionais, em que a criação do Africom se insere.
Entretanto abundam as especulações sobre o chamado «pós-Mandela» e o futuro de uma África do Sul em que, vinte anos após a liquidação do apartheid, subsistem gravíssimas desigualdades e problemas sociais e a estrutura de propriedade permanece praticamente intacta. É muito grande a esperança da reacção internacional no enfraquecimento da Aliança Tripartida – ANC, PCSA, COSATU – da qual o papel histórico de Mandela é inseparável. A luta libertadora do povo sul-africano continua. O PCP estará onde sempre esteve: com os comunistas e os revolucionários sul-africanos. Honrando a memória de Mandela.