Especulação macabra ou economia da comunhão

Jorge Messias

«Em 1981, a Agricultura empregava 52% da população mundial activa; número que caiu, em 2010, para 49%. Simultaneamente, os mercados alimentares e de sementes foram dominados por 10 grupos económicos (Bayer, Syngenta, Dow, Monsanto, Nestlé, etc.), quase todos norte-americanos. As suas empresas, num curto espaço de tempo, aumentaram os seus lucros anuais de 60% a 120%. O negócio diversificou-se e outro núcleo de 10 mega empresas (Nestlé, Pepsico, Kraft, Danone, Coca-Cola, Unilever e outras) ocuparam os circuitos de distribuição agroalimentar. Algumas (poucas) transnacionais dominam o espaço comercial que medeia entre milhões de pequenos agricultores e biliões de consumidores, em todo o mundo. Os activos financeiros deste sector eram de 5 mil milhões de dólares, em 2011» (Relatórios da FAO).

«FOCOLARES ou OBRA DE MARIA é um movimento religioso de inspiração cristã que deu origem (1991) ao projecto ECONOMIA DA COMUNHÃO o qual proclama a intenção de constituir grupos de empresas destinadas a produzir em comum riqueza subordinada aos princípios cristãos da solidariedade e da partilha. Na economia da comunhão, unidades lucrativas de produção propõem-se constituir, em rede, comunidades solidárias de patrões, assalariados e voluntários que criem postos de trabalho e satisfaçam as necessidades básicas dos cidadãos» (Movimento dos Focolares, Jornal Electrónico, 8 de Maio de 2006).

«As técnicas de filantropia de risco e doação de recursos foram adoptadas por muitas das principais fundações... Trata-se de obter mais retornos financeiros para os investimentos feitos a partir de doações de caridade… Só nos EUA existem mais de 50 000 fundações caritativas que recebem anualmente dádivas calculadas em vários biliões de dólares… Ajudar os outros não é simples questão de distribuir dinheiro mas de assumir um compromisso firme, a longo prazo, e ficar de olho nos resultados financeiros» (Warton School, Universidade da Pensilvânia, USA).

Seguramente que à esmagadora maioria dos crentes escapa uma dolorosa realidade: a caridade cristã, em muitos casos, não é impulso irresistível da fé; especula friamente nos mercados e representa um dos principais pilares da degradação moral que conduz os povos à miséria, à submissão e à fome. Rege-se pelo princípio capitalista do lucro. Visa ocupar o poder mundial absoluto. As altas hierarquias religiosas têm clara consciência desta situação radicalmente oposta aos princípios proclamados pela Ética católica oficial.

Aparentemente, pelo menos, a economia imperialista já «entrou em parafuso». Por muito dinheiro que lucrem, os agiotas precisam sempre de muito mais. E os príncipes da Igreja conhecem a importância que o Vaticano tem no projecto financeiro neoliberal. Sabem que, sem eles, os banqueiros nada mais seriam senão lixo. No meio de todo este pesadelo delirante, apenas a Igreja mantém uma estrutura férrea, uma organização universal e uma ideologia teoricamente defensável. Crise, aliás, é expressão que já nem faz sentido. O fosso entre pobres e ricos não tem fundo.

Assim vai o mundo e, na primeira linha, Portugal.

Fomos independentes e havemos de retomar um dia o destino entre as nossas mãos. De momento, porém, atolamo-nos no caos, com o Apocalipse na linha do horizonte. Não há dinheiro para mandar cantar um cego, diz o Governo; ao mesmo tempo, acena ao clero, às Misericórdias e a todo o cortejo de igrejas e igreginhas que aspiram à Economia da Comunhão como alternativa da luta de classes, com promessas de torrentes de euros. Esquecem-se de que os bispos não são ingénuos nem parvos e que exigem «acções e não palavras». Que o Estado pague primeiro e, depois, logo se verá… O capitalismo do papa Francisco é perfeitamente compatível com o catolicismo de um qualquer Passos Coelho… Adoram os mesmos deuses!

O povo português arrasta-se na lama, já a acordar mas ainda entorpecido com os santos ópios. Tudo se compra e tudo se vende. Políticos e eclesiásticos praticam liturgias iguais.

Mas a hora da verdade há-de soar… Quando nos erguermos à nossa própria altura e quando formos capazes de impor à nossa política nacional um rumo patriótico e de esquerda! Valores que passam pela unidade, na atitude e na acção, de comunistas e católicos. Sublinhava Marx: «A paz, a nação, o pão, a liberdade… não será isto bastante para nos unirmos?».

 



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