O ano de quem?

Anabela Fino

Um spot publicitário ouvido segunda-feira pela manhã na Antena 1 lembrou-me que está a decorrer o Ano Europeu dos Cidadãos, uma iniciativa da Comissão Europeia. Fosse por estar ainda dessintonizada com a realidade ou por simples desmemória, o facto é que a minha primeira reacção foi sentir-me roubada. É que achei tão hilariante o facto de a dona CE nos dedicar um ano inteiro – tem a ver com a Europa / tem a ver consigo, dizia o anúncio –, que me senti espoliada no legítimo direito de me andar a rir desde Janeiro.

Afinal – e assim se comprova como se pode ser injusto – não se tratava de nenhuma novidade escondida no segredo dos deuses, como constatei puxando pelas meninges: então não é verdade que Portugal teve a honra de receber a vice-presidente da Comissão Europeia, Viviane Reding de seu nome, que se deslocou de propósito a Coimbra para um «Diálogo com os Cidadãos» na belíssima Sala dos Capelos da Universidade? É certo que foi em Fevereiro, mas caramba uma coisa destas não ficou certamente por aí e havia de ser mais badalada do que a Sé de Braga...

O facto porém é que entre a visita de madame Viviane e o anúncio desta semana nada houve, tanto quanto me lembro, susceptível de mobilizar os portugueses para o objectivo fixado para o ano em curso, a saber, «que cada cidadão europeu conheça melhor os seus direitos» de molde a «exercê-los e ter uma voz activa na definição das prioridades europeias e das próprias políticas». Podiam ter dito, ainda pensei, vendo já as potencialidades de, nos três meses que faltam para o final do ano, ter o Zé povinho a fazer fila no Terreiro do Paço para dar umas dicas à troika, ainda que por interposta troika, mas aí decidi jogar pelo seguro (o legítimo) e lançar uma vista de olhos ao sítio de CE na Internet. É caso para dizer: fez-se luz! Ele houve debates, brochuras, entrevistas, portugueses do ano... Até está previsto um «Workshop sobre Implementação de Direitos Europeus» e a «43.ª extração especial da Lotaria Clássica evocativa do Ano Europeu dos Cidadãos». Palavra de honra que está.

No mundo virtual – com proveito decerto para quem navega nos europeus meandros – o Ano Europeu dos Cidadãos, o tal do Diálogo com os Cidadãos, vai de vento em popa e será certamente considerado um sucesso quando chegar a altura de a CE lhe fazer o balanço. Como sucedeu de resto com «anos» europeus anteriores, de que se pode citar a título de exemplo o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações ou o Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social.

Já sem grande vontade de rir, ainda me ocorreu que deve ser nestes exemplos da realidade virtual que Passos e Portas se inspiram, a ponto deste último andar por aí a dizer que depois de a economia ter batido no fundo com este pacto de agressão (ele diz resgate) que PS, PSD e CDS assinaram, «já saímos do fundo» e «estamos a começar a subir a escada». Em tempo de campanha há quem diga qualquer coisa. A verdade, porém, é que têm medo, pois sabem que nem é preciso escadote – quanto mais escada! – para o povo os correr dos poleiros em que se acoitam.



Mais artigos de: Opinião

Domingo o voto na CDU<br> 19 de Outubro nas ruas por Abril

Portugal é atingido pela política de direita e de abdicação nacional ao serviço do capital monopolista, num caminho de desastre e afundamento que coloca a necessidade da ruptura e da adopção de uma política vinculada aos valores de Abril,...

Dias negros

A passada segunda-feira era o dia em que o Governo tinha jurado a pés juntos que Portugal «ia regressar aos mercados». Mas afinal não foi! Não espanta que assim seja! Os «mercados», ou seja o grande capital financeiro que enriquece à custa da crise, da...

Bloco 4, 3.º esquerdo

Boa tarde, somos da CDU e estamos aqui para dar a conhecer os nossos candidatos e as nossas propostas. Foi com estas palavras que se iniciou o diálogo com a família que abriu a porta do 3.º esquerdo, no Bloco 4 do bairro de habitação social daquele concelho. Pai e mãe...

Os salta-pocinhas

Não sabemos quantos são, mas sabemos que são sempre os mesmos. Vivem numa azáfama constante transitando dos corredores do poder político para os corredores do poder financeiro, ou seja, do grande capital. Nos intervalos sempre encontram um confortável cargo nas empresas...

Instigação ao terror

O Paquistão voltou a exigir o fim dos ataques com drones perpetrados pelos EUA. Em nota enviada ao CS da ONU na semana passada, Islamabad relembra uma evidência gritante que a pena afiada da comunicação dominante faz por rasurar: tais actos violam a «soberania do Paquistão e o...