Passividade suspeita
Um inquérito parlamentar qualificou como um «fracasso vergonhoso» dos serviços secretos alemães, a série de crimes impunes cometidos por uma célula neonazi ao longo de dez anos.
Autoridades subestimam violência neonazi
O relatório final da comissão parlamentar da câmara baixa (Bundestag), divulgado, dia 22, conclui que a acção das autoridades ficou marcada por graves falhas e omissões, mas não deu como provada «qualquer ligação» entre os responsáveis pela investigação e o grupo neonazi.
Contudo, as suspeitas mantêm-se já que, segundo declarou a social-democrata Eva Högl, os erros cometidos não foram pontuais, mas devem-se a problemas «estruturais». São estes problemas que explicam a demora em se descobrir o grupo neonazi que perpetrou a série de assassínios.
Por trás da atitude aparentemente negligente das autoridades, «há com frequência preconceitos racistas» que impedem a investigação em todas as direcções, observou Högl.
A célula neonazi denominada «Clandestinidade Nacional-Socialista» (NSU) era composta por dois homens, Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos, e uma mulher, Beate Zschäpe, que está actualmente a ser julgada.
Entre 2000 e 2007, o trio cometeu uma dezena de assassínios. As vítimas eram sempre imigrantes e a pistola utilizada foi sempre a mesma. Oito turcos, um grego e um agente da polícia perderam a vida, mortes que as autoridades insistiam em atribuir a «ajustes de contas» entre imaginárias máfias estrangeiras.
Como assinalou o presidente da comissão de inquérito, o social-democrata Sebastian Edathy, a polícia deu como certo que «turcos tinham matado turcos» e orientou a investigação para os familiares das próprias vítimas. Assim, o vasto aparato de dispositivos de vigilância, buscas e detenções nunca deu quaisquer resultados.
Em 2006, a célula nazi executa o jovem turco Halit Yozgat no seu próprio cibercafé, em Kassel, no Norte do estado de Hessen. A polícia deteve o alemão Andreas Temme, que tinha estado no local do crime. Descobriu que se tratava de um agente dos serviços secretos e foi posto em liberdade.
À comissão parlamentar, Temme declarou que se encontrava no estabelecimento simplesmente para utilizar a Internet.
Para além dos homicídios, o grupo realizou atentados à bomba e assaltou uma dezena de bancos. Todavia, as forças de segurança só reconheceram a existência da NSU em 2011, depois de os dois homens se terem suicidado após o assalto a um banco, em Eisenach, no Leste da Alemanha.
O terceiro elemento entregou-se à polícia após ter feito explodir o apartamento em Zwickau (Saxónia), onde residia.
A estranheza da actuação policial é ainda acentuada pelo facto de os membros deste grupo constarem dos arquivos policiais como neonazis desde finais dos anos 1990. É também conhecido que os serviços de segurança têm vários elementos infiltrados nas organizações da extrema-direita alemã.
Para além de criticar as forças de segurança, o relatório parlamentar formula 47 recomendações para evitar novas ondas de violência nazi, que incluem a incorporação de mais agentes de origem estrangeira e uma maior atenção à educação e formação intercultural, com vista a extirpar definitivamente o racismo das instituições policiais.