Economia portuguesa: uma economia paralisada
Recorrentemente, nos meios de comunicação social, é-nos dito que as exportações são o motor da recuperação da nossa economia. As exportações são, hoje em dia, para muitos economistas e comentadores, aquilo que, na viragem do século XV para o século XVI, eram para Portugal as especiarias provenientes da Ásia e, no século XVIII, o ouro da Brasil. Quanto aos benefícios destinados ao povo português, no passado, provenientes da pimenta e do ouro, estamos conversados.
Quanto, nos dias que correm, ao papel das exportações, vejamos:
Em 2012, num ano de forte crescimento do desemprego, as exportações de bens atingiram o valor de 45 324 milhões de euros, o que, comparado com o ano anterior, significou um aumento de 5,8%. Em termos geográficos esse aumento não foi uniforme. Houve uma regressão nas exportações para os países da zona euro e um aumento de 8,2% para os países fora da zona euro.
Não obstante esta assimetria, a verdade é que, em termos absolutos, os maiores destinatários das nossas exportações – cerca de 47% – continuam a ser a Espanha, a Alemanha e a França, embora caibam a Angola, à China e aos Estados Unidos os maiores crescimentos em valor.
O que é que, em 2012, exportámos?
Por grupos de produtos, as maiores exportações foram, em milhões de euros, as seguintes:
1. Veículos automóveis: 4935;
2. Produtos petrolíferos refinados: 3552;
3. Produtos químicos: 2870;
4. Produtos alimentares: 2823;
5. Equipamento eléctrico: 2528;
6. Artigos de vestuário: 2518;
7. Produtos metálicos (excepto máquinas e equipamentos): 2493;
8. Artigos de borracha e de matérias plásticas: 2373;
9.Metais de base: 2290;
10.Papel, cartão e seus artigos: 2097;
11.Máquinas e equipamentos não especificados: 2073;
12.Produtos informáticos, electrónicos e ópticos: 1863;
13.Calçado, couro e produtos afins: 1791.
Quais foram as empresas exportadoras?
Com base nos últimos dados disponíveis, o número de empresas ligadas à exportação de bens representava, apenas, 4,3% do universo das empresas formalmente existentes em Portugal. Trata-se, pois, de um número bastante residual, muito longe daquilo que é propalado nos meios de comunicação social. A maior parte das empresas exportadoras são de pequena dimensão, ou seja, têm menos de 10 trabalhadores. Estamos a falar de um universo envolvendo 28870 empresas que, em 2011, exportaram bens no valor de 3797 milhões de euros, o que significa uma média de 131534 euros por empresa.
Em oposição a este baixo valor, temos 590 empresas – todas elas com 250 ou mais trabalhadores – que naquele ano exportaram bens no valor de 18360 milhões de euros, o que significa uma média de cerca de 31 milhões de euros por empresa.
A realidade é, pois, a seguinte: as exportações estão concentradas num reduzido número de empresas, pelo que o crescimento do seu valor terá um efeito pouco expressivo na redução do desemprego. A realidade é, também, a seguinte: cerca de 43% do valor das exportações está concentrado em, apenas, 1,2% do número de empresas dedicadas à venda de bens no estrangeiro.
Mas se a desagregação da estatística ainda for maior então a realidade nua e crua é aquela que se segue.
Quais as maiores empresas exportadoras?
Em resposta a um nosso pedido, o INE referiu que os 50 maiores exportadores, em 2012, foram os seguintes:
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Extracção e preparação de minérios metálicos: Somincor – Sociedade Mineira de Neves-Corvo;
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Indústrias alimentares, bebidas e tabaco: Sovena, Lactogal, Sogrape, Unicer, Philip Morris International Management;
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Indústria de preparação de cortiça: Amorim & Irmãos;
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Fabricação de pasta, de papel, cartão e seus artigos: Celbi, Europa & C Kraft Viana;
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Fabricação de produtos petrolíferos refinados: Petrogal;
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Fabricação de produtos químicos e de fibras sintéticas ou artificiais: Artlant PTA, ADP Fertilizantes, Repsol Polímeros, Dow Europe Gmbh Chemische Rohmaterialen, Fisipe;
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Fabricação de produtos farmacêuticos: Hovione Farmacêutica;
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Fabricação de artigos de borracha e de matérias plásticas: Continental Mabor, Intraplas;
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Fabricação de produtos minerais não metálicos: BA Vidro, Santos Barosa;
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Indústrias metalúrgicas de base: SN Seixal, SN Maia, OFM;
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Fabricação de receptores de rádio e de televisão: Bosch Car Multimedia;
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Fabricação de máquinas e equipamentos: Grohe;
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Fabricação de equipamento eléctrico: Enercon GMBH, Efacec Energia, Coficab, Yasaki Saltano, Bosh Termotecnologia;
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Fabricação de veículos automóveis: Volkswagen Autoeuropa, Peugeot Citroen, Delphi Automotive Systems, Preh, Renault Cacia, Faurécia-Sistemas de Escape, Delphi Metal España, Faurécia-Assentos de Automóveis, Continental Teves;
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Fabricação de mobiliário e colchões: Swedwood;
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Fabricação de artigos de desporto: RGVS Ibérica;
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Fabricação de artigos de joalharia e de ourivesaria: Moutinho & Araújo;
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Comércio por grosso: Peugeot Citroen, Visteon Electronics Corporation, BP; Goldropa-Comércio de Metais Preciosos, Portucel-Soporcel, Tyco Electronics Logistics, Robert Bosh;
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Actividades de serviços financeiros: Wolkswagen Aktiengesellschaft.
Esta listagem, embora não refira o valor exportado por cada uma das empresas nem refira a dimensão e a origem do capital social, permite perceber a expressiva influência estrangeira no nosso tecido produtivo ligado à exportação.
E não só. Dá para perceber a sua influência junto do Governo, o qual, no contexto da alteração fracassada da Taxa Social Única, estava disposto a encontrar uma alternativa, ou seja, uma solução de privilégio para as empresas exportadoras, por forma a reduzirem ao seus encargos para a segurança social.
Privilégio para as microempresas?
Das grandes empresas dominadas total ou parcialmente pelo capital estrangeiro, destacam-se, pelo volume de vendas: Petrogal, Volkswagen, Portucel, Mabor, Repsol, Bosch, Delphi, Siderúgia, Somincor, Peugeot, Philips Morris, Renault, entre outras.
Esta listagem dá, também, para perceber que uma importante parcela do poder decisório não está localizado em Portugal, mas sim na Alemanha, em França, em Espanha e em outros países.
Acresce a tais circunstâncias uma outra e que é a seguinte: uma parte significativa da capacidade exportadora de muitas empresas atrás referidas não se alicerça nos recursos naturais do nosso País mas sim resulta das importações dessas mesmas empresas, ou seja, muitas unidades exportadoras são, simultaneamente, grandes importadoras, o que significa uma economia tipo «pescadinha de rabo na boca».
Vejamos, no âmbito do comércio internacional de bens, reportado a 2012, os seguintes exemplos:
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A Petrogal é, simultaneamente, a 1.ª exportadora de bens e a 1.ª importadora;
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A Volkswagen Autoeuropa é a 2.ª maior exportadora e a 3ª maior importadora;
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A Continental Mabor é a 4.ª maior exportadora e a 13.ª maior importadora;
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A Repsol Polímeros é a 5.ª maior exportadora e a 9.ª maior importadora;
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A Bosch Car Multimedia é a 7.ª maior exportadora e a 16.ª maior importadora;
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A Delphi Automative Systems é a 8.ª maior exportadora e a 20.ª maior importadora;
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A SN Seixal-Siderurgia Nacional é a 9.ª maior exportadora e a 18.ª maior importadora.
A economia portuguesa está, pois, condicionada a estratégias que nos são alheias.
Quem, a este propósito, não se lembra da famosa Quimonda, considerada na altura a nossa maior exportadora? Essa unidade industrial, subsidiária de uma empresa localizada na Alemanha, importava toda a matéria-prima daquele país e exportava a totalidade da sua produção para a referida empresa-mãe.
Esta, um dia, decidiu cortar o cordão umbilical. E aquilo que era um ex-libris da nossa economia passou, de um dia para o outro, a ser uma tragédia social para muitos trabalhadores, parte dos quais pessoas com elevados conhecimentos técnicos.
Quem é que pode assegurar que a Volkswagen, a Continental Mabor, a Repsol Polímeros, a Bosch Car Multimedia, a Delphi Automotive Systems e muitas outras não resolvam levantar a tenda e mudar de ares?
É preciso evitar que a «economia beduína» desarticule ainda mais a nossa debilitada estrutura produtiva. Para tanto é necessário uma outra política que:
- seja, simultaneamente, patriótica e de esquerda;
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não desdenhe do investimento útil para o País proveniente do estrangeiro;
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induza nas exportações o máximo de recursos do nosso País, em vez de material importado;
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considere estrategicamente prioritário o mercado interno.
Fontes: Estatísticas do Comércio Internacional – 2012, INE – Julho de 2013.