Citações

José Casanova

Estou em crer que, mais dia menos dia, al­guém to­mará a ini­ci­a­tiva de or­ga­nizar e pu­blicar uma se­lecção de «pen­sa­mentos de Ca­vaco Silva», à se­me­lhança do que, em tempos, foi feito em re­lação a esse outro in­signe pen­sador que foi Amé­rico Tomás. E há que dizer que, quem o fizer, tem pano para mangas e êxito de vendas as­se­gu­rado, tal a quan­ti­dade, a pro­fun­di­dade, a hi­la­ri­dade dos «avisos», «alertas», ci­ta­ções», «pen­sa­mentos», pro­du­zidos pelo ac­tual Pre­si­dente da Re­pú­blica – sempre ir­ra­di­ando uma in­te­li­gência ful­gu­rante, uma acu­ti­lância ci­rúr­gica, uma cul­tura avas­sa­la­dora.

E uma coisa, pelo menos, é certa: sempre que Ca­vaco Silva verte pen­sa­mento em pú­blico põe o País a gar­ga­lhar.

Re­cordo que, aqui há uns anos, num 10 de Junho – «Dia da Raça», por de­cisão de Sa­lazar e por opção do ac­tual Pre­si­dente da Re­pú­blica – um jor­na­lista per­guntou ao então pri­meiro-mi­nistro, se sabia quantos Cantos tinha Os Lu­síadas. Ca­vaco, no seu es­tilo muito ao jeito de Alípio Abra­nhos, con­fessou: «Não me re­cordo, como a mai­oria dos por­tu­gueses es­tudei a obra no En­sino Se­cun­dário» – mas logo acres­centou, lam­peiro: «Agora vou a Os Lu­síadas quando pre­ciso de en­con­trar al­guma ci­tação, ou quando a minha mu­lher me faz algum de­safio».

De então para cá, foi um far­tote de pen­sa­mentos e ci­ta­ções, amiúde en­tre­me­adas de lu­zidas con­fis­sões cul­tu­rais: Li, uma vez, um livro: A Utopia, de Thomas Mann…

Há dias, a con­selho da es­posa, Maria, citou Nossa Se­nhora de Fá­tima e fez da re­fe­rida Se­nhora uma pro­pa­gan­dista das mal­fei­to­rias do pacto das troikas – e, no dia se­guinte, pre­sumo que no­va­mente ins­pi­rado pela con­sorte, chamou à liça S. Jorge, por tra­dição por­tador de boas no­tí­cias, ci­tando-o a aben­çoar as prá­ticas de aus­te­ri­dade do Go­verno ao ser­viço da troika ocu­pante.

É claro que destas in­vo­ca­ções e ci­ta­ções não vem mal de maior ao País: o Pre­si­dente cita e a malta ri, ou sorri, ou cora…

O mesmo não direi da mais so­lene de todas as suas ci­ta­ções: aquela em que ele, de mão no peito, diz: «Juro, pela minha honra, cum­prir e fazer cum­prir a Cons­ti­tuição da Re­pú­blica Por­tu­guesa». E de­pois faz o que faz.



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