Negrume

Correia da Fonseca

Negro é cor (ou, mais exac­ta­mente, a au­sência de luz) com co­no­ta­ções si­nis­tras. Mas ne­grão é pior. Mais ainda e de uma forma par­ti­cular se se trata de ape­lido e, nesse caso, se está re­la­ci­o­nado com uma ten­ta­tiva para im­pedir os mais jo­vens por­tu­gueses de co­nhecer a pri­meira das leis da Re­pú­blica, o que pelos vistos acon­teceu numa acção pro­ta­go­ni­zada por um se­nhor de­pu­tado.
Ne­grão, Fer­nando por nome de bap­tismo. Quando mo con­taram, eu não queria crer: podia lá ser!, um de­pu­tado a pre­tender ins­taurar numa es­pécie de cen­sura sobre a Cons­ti­tuição que, sendo de todos os por­tu­gueses, é-o também dos ga­rotos que fre­quentam os ci­clos ini­ciais do en­sino pú­blico ou pri­vado! Porém, ouvi a no­tícia quando pres­tada pela TV, e se a TV a dava era porque a in­for­mação era sem dú­vida fi­de­digna pois, já se sabe, o que a te­le­visão nos conta está sempre acima de qual­quer sus­peita. E pasmei. É certo que o se­nhor de­pu­tado Ne­grão é de di­reita ou, se se pre­ferir, é so­cial-de­mo­crata à por­tu­guesa, o que fac­tu­al­mente é o mesmo, mas ainda assim a coisa pa­receu-me sur­pre­en­dente porque tudo tem li­mites e, pre­ci­sa­mente, um dos li­mites cor­rentes é o do res­peito pelo de­coro. Também pelo de­coro po­lí­tico, na­tu­ral­mente. Será que o de­pu­tado Ne­grão não sabe que a Cons­ti­tuição da Re­pú­blica re­cebeu os votos fa­vo­rá­veis do seu par­tido não apenas nos idos his­tó­ricos de 76 mas também no de­curso das su­ces­sivas al­te­ra­ções que de então para cá lhe foram in­fli­gidas? Será que nunca ne­nhum dos seus com­pa­nheiros teve a ca­ri­dade de lho en­sinar? Ou, co­lo­cando uma dú­vida mais me­lin­drosa: será que o se­nhor de­pu­tado não terá hoje, al­guns dias de­cor­ridos sobre a sua tris­tís­sima ini­ci­a­tiva, a lu­cidez bas­tante para se aper­ceber da falta de pudor po­lí­tico e cí­vico que a sua mal­fa­dada ideia re­velou?

Não acon­teceu nada

Ao que consta, o se­nhor de­pu­tado Ne­grão acha que a Cons­ti­tuição da Re­pú­blica é ide­o­ló­gica, ar­gu­mento que re­vela nunca ele ter apren­dido que tudo nesta vida é ide­o­ló­gico com as con­sequên­cias de ordem po­lí­tica que essa ca­rac­te­rís­tica im­plica. Por exemplo, o se­nhor de­pu­tado é bru­tal­mente ide­o­ló­gico, tanto e de tal modo que lhe deu agora para pre­tender ocultar a alunos das es­colas por­tu­guesas uma parte da lei que também a eles diz res­peito. Teria sido pro­vei­toso que se sou­besse exac­ta­mente quais se­riam os frag­mentos da Cons­ti­tuição que ele pre­ten­deria cen­surar, mas não será ab­surdo supor que se­riam os que mais cla­ra­mente apontam para um País onde todos os ci­da­dãos têm o di­reito de serem li­vres em todas as áreas onde a li­ber­dade as­sume formas con­cretas: li­vres porque lhes é de­vido o di­reito a um posto de tra­balho re­mu­ne­rado, li­vres por terem pro­tecção contra os dramas da do­ença e a tra­gédia da mi­séria na ve­lhice, li­vres para cons­truírem uma so­ci­e­dade ex­pur­gada da ex­plo­ração de­sen­freada das mai­o­rias de­sam­pa­radas pelas mi­no­rias des­ver­go­nhadas, coisas assim. Na ver­dade, a pre­tensão do se­nhor de­pu­tado é a vá­rios tí­tulos ni­gér­rima e con­fi­gura não um pro­jecto de al­te­ração cons­ti­tu­ci­onal, o que seria ad­mis­sível ainda que des­lo­cado na opor­tu­ni­dade, mas sim uma ten­ta­tiva de agressão cí­vica pra­ti­cada sobre os mais vul­ne­rá­veis e in­de­fesos, de tal modo que a sua pro­posta talvez de­vesse ser ob­ser­vada na secção par­la­mentar que se ocupa de Di­reitos, Li­ber­dades e Ga­ran­tias. À falta disso, pa­rece que seria com­pre­en­sível, se não de­on­to­lo­gi­ca­mente obri­ga­tório, que a co­mu­ni­cação so­cial por­tu­guesa em geral e a te­le­visão em es­pe­cial se ti­vessem de­tido pelo menos um pouco sobre a pro­posta do se­nhor de­pu­tado, lhe ti­vessem es­gra­va­tado as raízes e re­flec­tido a re­pug­nância por ela sus­ci­tada nos ci­da­dãos que, por serem de­mo­cratas, cons­ci­entes e fiéis à Lei Fun­da­mental, não querem que ela seja par­ci­al­mente ocul­tada aos seus fi­lhos e netos. Não acon­teceu nada, pelo menos na TV e na im­prensa que me passou pelas mãos, o que tem al­guma gra­vi­dade. Fica este tex­to­zinho obs­curo nas pá­ginas deste se­ma­nário hon­rado e pa­triota como ob­jecção débil à ini­ci­a­tiva feia e ver­da­dei­ra­mente negra do de­pu­tado Ne­grão.



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