A igreja e a roleta da fome e da pobreza
«As riquezas são injustas porque são fruto da miséria dos outros… Como é que tu, rico que acumulaste a tua riqueza esmagando os pobres, ainda tens coragem para entrar no templo?... Quando tu já estiveres morto e o povo passar diante do teu paço, os pobres dirão: ao preço de quantas lágrimas foi ele construído? Quantos órfãos deixou nus? Quantas viúvas injustiçadas? Quantos operários foram roubados dos seus salários?» ( S. João Crisóstomo, Pai da Igreja, Séc. IV DC ).
«Pelo passado podemos julgar o futuro… Sabemos que os primitivos cristãos, despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conciliar o favor dos ricos e a protecção dos poderosos… Viam-nos diligentes, laboriosos, modelos de justiça e, principalmente, de caridade...» (encíclica Rerum Novarum, Leão XIII, 1878 ).
«Vivemos sob o império da Teologia Neoliberal de Mercado, sem regras e sem controlo político eficaz. O poder emancipou-se da política; esta, já não o detém nem o controla. O neoliberalismo é uma religião laica… inscrita em Novas Tábuas da Lei» (Juan José Tamayo, «Utopias para tempos de crise»).
«A burguesia no poder começou por combater o catolicismo mas acabou por contratar com ele uma aliança duradoura. Foi o que aconteceu com Napoleão: arrebatou aos papas o seu poder temporal mas assinou com eles a Concordata que liderou, em França, o renascimento da Igreja» («A Política e a organização do Vaticano», O. Arturov, 2008 ).
Nas mentalidades de formação verdadeiramente marxista-leninista torna-se obrigatório esclarecer que a crítica frontal às posições políticas, económicas e sociais do clero não envolve, globalmente, o povo católico ou, melhor, a massa crente do povo. Escrevia o camarada Álvaro Cunhal em 1942, numa época apocalíptica que parece agora preparar-se para ressurgir: «Plena liberdade de consciência, plena liberdade de crença e prática de culto – este é um objectivo pelo qual os comunistas se batem e querem que integre o Portugal democrático de amanhã. Nós somos intransigentes adversários das guerras contra a religião e das práticas que firam os sentimentos religiosos dos crentes. Nós somos contrários a qualquer repressão em matéria religiosa, a quaisquer perseguições por motivos religiosos. A nossa política é uma política de Unidade e de Concórdia. Os nossos propósitos são os de todos os portugueses e portuguesas honrados.
Nada nos move contra o catolicismo, como contra qualquer outra religião»
(«Pelo Socialismo», 1942).
Em 2013, há fome em Portugal. O desemprego galopa, fala-se em milhão e meio de desempregados, sem esperança nem futuro, mas na realidade não se toma em linha de conta todos aqueles que são socialmente atingidos pelos efeitos devastadores do terrorismo neoliberal do Estado pré-fascista. Meio país aguarda, angustiado, receber o seu «golpe de misericórdia».
É preciso sair-se deste pântano de lama. Sejam padres ou banqueiros, letrados ou analfabetos, crentes, ateus ou assim, assim… impõe-se a todos o respeito pelas normas honestas e o acatamento dos princípios de cumprimento obrigatório inscritos na Constituição da República e nas leis que traduzam a legalidade democrática. A dignidade da pátria, a igualdade entre os cidadãos, o serviço público, a justa repartição da riqueza, são valores que balizam as democracias. Nunca se discutem.
Desgraçadamente, o País em que vivemos é o oposto a esta escala de valores. Mentem abertamente os ministros e mentem os mais altos magistrados. Nem já se procura disfarçar a corrupção. A Igreja envolve-se em negócios sujos. Enreda-se nas teias da baixa política e dos escândalos mafiosos. Cobiça o domínio das estruturas públicas e dos seus centros de decisão. Continua a colocar enormes massas financeiras ao serviço da mais espessa ganância. Oculta os seus lucros nas pregas da mais diáfana manta da Caridade. O Oceano (o «Mare Nostrum») é capitalista mas ostentam a Cruz de Cristo muitas das naus de piratas que por lá navegam.
No entanto, multidões de católicos continuam a merecer o respeito dos portugueses. Mas não são aqueles que se passeiam pelos gabinetes dos ministros ou pelos corredores do Patriarcado. A nossa luta trava-se, lado a lado, com o povo católico esmagado pela gula do grande capital. Aproximamo-nos do ponto em que nada poderá ser pior daquilo que já é…
Vamos dar a volta a tudo isto!..