Horas decisivas – o golpe final (3)
Terminada a enérgica e contínua preparação política das massas de homens que compunham, agora, o conjunto de frentes soviéticas, em acordo, com o plano geral que Jukov e Vasilievski tinham preparado e Staline subscrevera, estabeleceu-se que a fase de arranque da nova batalha de Stalinegrado começaria às 07.30 horas da manhã de 19 de Novembro de 1942 com fortes, quase intermináveis, barragens de fogo de artilharia. Era o sinal de que as frentes Ocidental-Sul e do Dão iam contra-atacar.
Stalinegrado seria salva pelo Exército Vermelho. Toda a região entre o Dão e o Volga seria limpa de forças invasoras
O grande impulso partiu da primeira destas poderosas formações usando o 5.º exército de tanques (Romanenko) e o 21.º exército de infantaria (Chistyakov) apoiados pelos 17.º e 2.º exércitos do Ar que os generais Krasovski e Smirnov comandavam. A resistência do inimigo foi particularmente feroz contra os carros de Romanenko tendo-se tornado necessário destacar os 1.º e 26.º corpos de exército de tanques (Butkov e Rodin) para acorrerem em seu auxílio. Então, tornou-se possível a destruição de toda a oposição encontrada enquanto, a grande velocidade, se lançavam para Sul eliminando a 1.ª divisão de tanques romena e o próprio quartel-general do 5.º corpo de exército, também romeno, e progredindo na direcção do sector Kalach-Sovietski onde a histórica junção da Frente Oriental-Sul (Vatutine) com a Frente de Stalinegrado (Yeremenko) e o cerco do 6.º exército nazi (Paulus) e de partes do 4.º ‘Panzer’ (Hoth) teriam lugar, como previsto. Nesta conjuntura, a Frente do Dão (Rokossovski) que ultrapassara Vertyachi, liquidaria ou aprisionaria as importantes formações nazis acima referidas.
De acordo com o complexo plano divisado por Vasilievski e Jukov os carros de Rodin atravessaram o Dão e, sem vacilações, enfrentaram o inimigo que lhes contestava a área de Kalach, onde, no entanto, esperavam chegar na tarde do dia 23 de Novembro. Por esta altura, já o 4.º corpo de exército de tanques (Kravchenko) havia, igualmente, passado o Dão para a respectiva margem Oriental. As operações da Frente do Dão, assim, tinham ganho a dinâmica essencial que se esperava. O avanço das suas forças compelia o inimigo a reduzir a área dos seus próprios movimentos. O 65.º exército (Batov), em colaboração com o 21.º (Chistyakov) pertencente à Frente Ocidental-Sul, avançava numa direcção Sudeste enquanto o 24.º (Galanine), que entrara em acção a 22, atacava de Norte para Sul ao longo da margem esquerda do rio Dão. Por outro lado, a Frente de Stalinegrado (general Yeremenko; conselho militar: Nikita Kruchtschev) começara o seu contra-ataque, a 20, sob um denso lençol de nevoeiro tendo o 51.º exército (Trufanov) entrado em operações às 08.30 da manhã desse mesmo dia, o 57.º (Tolbukine) duas horas mais tarde e o 64.º (Chumilov) já depois do meio-dia. O apoio aéreo a estas grandes formações era garantido pelo 8.º exército do Ar (Kryukine).
Entretanto, o 62.º exército (Chuikov), aquele que sempre lutara no interior de Stalinegrado e vivera cada minuto dos últimos três meses em todos os palmos de terreno pelos quais se combatera, procurava arrancar o inimigo dos sectores onde se entrincheirara para fazê-lo mostrar-se no dia e na noite da estratégica cidade e chamá-lo à luta para poder expulsá-lo. Como já vimos, seriam as tropas da Frente de Stalinegrado (Yeremenko) que, de acordo com o plano de cerco das principais formações nazis, chegariam a Sovietski para que se realizasse o fecho do histórico anel de ferro dentro do qual seria marcado o destino do 6.º exército (von Paulus) e de algumas unidades ‘Panzer’, de Hoth. Mas realizada a planeada junção em Kalach-Sovietski, Yeremenko partiria para novas distâncias, a Ocidente. O golpe final, que levaria à rendição de Paulus, caberia a Rokossovski, como veremos mais adiante.
Com efeito, em três dias de combates, os 13.º e 4.º corpos de tropas motorizadas (Volski) e o 4.º de cavalaria (Chapkine) avançaram, decisivamente, e, idos de Sul, começaram a criar o envolvimento do grupo de tropas nazis entre o Dão e o Volga. A junção entre elementos das frentes soviéticas, depois de o inimigo ter tentado bloquear o avanço do Exército Vermelho (57.º exército, de Tolbukine) sobre Kalach chamando do sector de Stalinegrado propriamente dito as suas 16.ª e 24.ª divisões ‘Panzer’, acabaria por verificar-se às quatro horas da tarde de 23 de Novembro de 1942. Nesse dia, as tropas das frentes Ocidental-Sul e de Stalinegrado, comandadas, respectivamente, por Vatutine e Yeremenko, uniam-se na zona de Kalach, como se planeara, ao encontrarem-se com a 45.ª brigada do 4.º corpo de exército de tanques (tenente-coronel Zhidok) e com a 36.ª brigada mecanizada (tenente-coronel Rodionov). A junção na zona de Sovietski seria realizada entre o 4.º corpo de exército de tanques (general Kravechenko), da Frente Ocidental-Sul, e o 4.º corpo de forças mecanizadas (Volski), da Frente de Stalinegrado.
Estas uniões de tropas selavam o cerco ao inimigo que se agrupava entre o Dão e o Volga e ocupava partes de Stalinegrado. Permitiam, também, o posicionamento dos 64.º, 57.º, 21.º, 65.º, 24.º e 66.º exércitos para tomarem parte no assalto final aos ocupantes da martirizada cidade. Mas simultaneamente o general Trufanov e parte do seu 51.º exército (Frente de Stalinegrado), movimentando-se numa direcção Sudoeste, deslocavam-se para mais longe e começavam a construir um segundo anel de envolvimento, do interior do qual ninguém sairia. Este segundo cerco seria completado de Norte pelo conjunto das forças do tenente-general, Vatutine (Frente Ocidental-Sul), tendo ambas as frentes recebido ordens para que o anel que estavam a construir se executasse tão a Ocidente quanto possível (150-200 quilómetros) para impedir uma eventual manobra de forças nazis que surgissem com o intuito de libertar os seus exércitos agora sitiados. Era o fim do princípio do contra-ataque soviético.
Von Paulus está perdido
Nos primeiros dias de Dezembro começava a organizar-se o aniquilamento das forças nazis caídas no ardil e era sem grandes dificuldades que se verificava a destruição das mil esperanças que, até na Chancelaria do ‘Reich’, alguns já começavam a perder. Stalinegrado seria salva pelo Exército Vermelho. Toda a região entre o Dão e o Volga seria limpa de forças invasoras. E dava-se o contrário, precisamente, daquilo que o Führer, o mais violento e criminoso dos defensores do imperialismo, tinha desde sempre preconizado. Em vez da transformação da URSS num país de escravos, a alma soviética surgia, poderosa e profundamente humana, a mostrar ao mundo a estrada da vitória.
O general von Paulus (Friederich), comandante do 6.º exército nazi, decidiu, então, tentar sair do envolvimento a que estava submetido tentando a fuga numa direcção Sudoeste. Mas em Berlim o Führer rejeitou esta medida ordenando-lhe que formasse um perímetro defensivo até que, de fora, surgisse o necessário auxílio. O plano de Adolf Hitler consistia na criação de uma nova formação, o ‘Grupo de Exércitos do Dão’ que incluiria o Grupo de Exércitos ‘A’ (List), retirado do Cáucaso e que, sob o comando do marechal de campo, Erich von Manstein, avançaria de Sudoeste para libertar os 300 000 homens do 6.º exército e as muitas outras unidades dispersas por toda a zona de Stalinegrado e dos dois rios russos. Este general nazi, mais tarde autor de ‘Vitórias Perdidas’, preferia que von Paulus se desembaraçasse do cerco que o estrangulava, por si próprio, pelo menos até uma certa distância, enquanto o ‘Grupo de Exércitos do Dão’ cuja unidade principal era o 4.º exército ‘Panzer’ (Hoth), marchava ao seu encontro. Mas o Führer recusou admitir o abandono da zona do Volga e, assim, o ataque de Manstein só começaria a 12 de Dezembro numa área consideravelmente mais alargada e, por isso, mais difícil de controlar dadas as condições do tempo.
Com trinta divisões, a operação de libertação do 6.º exército partiria de Kotelnikovski e de Tormosine. Naturalmente, o comando soviético previra, desde o primeiro momento da sua espantosa operação, que o exército sitiado de von Paulus tentaria romper o cerco que o condicionava e retirar para sobreviver. Por isso, as Frentes do Dão e de Stalinegrado receberam ordens para a preparação do assalto final e para a destruição do grupo de tropas inimigas. Obviamente, a derrota dos nazis em Stalinegrado e em toda a zona do Dão e do Volga, com largas repercussões no Cáucaso e em todo o mundo, constituiria para o Führer um autêntico desastre de proporções estratégicas talvez superiores ao que se vira em Moscovo. Mas, tendo forçado o 51.º exército soviético (Trufanov) e o corpo de exército de cavalaria do general Chapkine a retirar para além do rio Mychekova, o general Manstein e o seu ‘Grupo de Exércitos do Dão’ estavam, somente, a 40 quilómetros de Stalinegrado e acreditavam no êxito da sua aventura.
Em Moscovo, entretanto, Vasilievski ordenava a intervenção do 2.º exército de Guardas (Malinovski) cuja entrada em operações inverteria toda a situação. Assim, a 16 de Dezembro, depois de derrotarem o 8.º exército italiano, o 1.º exército de Guardas (V.I. Kuznetsov), o 3.º, também de Guardas, (Lelyuchenko), assim como o 6.º de infantaria (Poluboyarov), avançavam sobre Morozovsk. Outras forças do Exército Vermelho chegavam às vizinhanças de Millerovo. O desespero de von Paulus tornava-se evidente e, nas unidades de combate, a disciplina, tão característica da ‘Wehrmacht’, desintegrava-se e começava a tocar fronteiras de insubordinação. Os povos começavam a acreditar que a derrota do ‘III Reich’ e a expulsão das forças armadas hitlerianas de todo o território da URSS seria possível.
Impaciente, Staline pressionava os generais comandantes de frentes no sentido de que apressassem a destruição do inimigo germânico cercado em Stalinegrado. Isso permitiria que se transferissem recursos para combater e destruir, também, as unidades germânicas que, inevitavelmente, retirariam do Cáucaso e de todo o Sul. Assim, na reunião da ‘Stavka’, o Comandante Supremo sugeriu: «As operações destinadas a acabar com o grupo inimigo cercado na área de Stalinegrado devem ser dirigidas por um só homem. O facto de haver duas frentes e, portanto, dois comandantes de Frente a envolver nessas operações, tira-lhes eficiência». As duas frentes em causa eram a de Stalinegrado (Yeremenko) e a do Dão (Rokossovski) e todos os membros da ‘Stavka’ secundaram a opinião de Staline. Mas quem escolher para tão elevada como histórica e emblemática missão?
A escolha, como se esperava, recaiu em Konstantin Konstantinovich Rokossovski (1896-1968), o que provocou ofensa e desgosto em Yeremenko, que era o preferido por Jukov e Vasilievski. Mas a Directiva que nomeava o comandante da Frente do Dão para a honrosa tarefa de libertação na luta final por Stalinegrado seria assinada e emitida em 30 de Dezembro de 1942. Nessa mesma Directiva se ordenava a transferência da Frente de Stalinegrado para a Frente do Dão dos 62.º exército (Chuikov), 64.º (Chumilov) e 57.º (Tolbukine). Nestes termos, a Frente do Dão passaria a contar, segundo elementos de 10 de Janeiro de 1943, com uma força operacional de 212 000 homens, 6900 canhões e morteiros, 250 tanques e 300 aviões de combate. O general Voronov (Nikolai), mestre da arma de artilharia, assumia o cargo de representante oficial do Comando Supremo (Staline e Jukov) junto de Rokossovski e este começaria, imediatamente, a inspeccionar as tropas que, sob o seu comando, aprisionariam Paulus e poriam fim à vida inglória do famoso 6.º exército da ‘Wehrmacht’.
Segundo Jukov: «O perímetro exterior da área do Dão tinha sido feito avançar entre 200 e 250 quilómetros para Ocidente e, assim, os contingentes nazis encurralados ficaram numa posição catastrófica. Não tinham perspectivas de libertação, chegavam-lhes ao fim absoluto os ‘stocks’ de abastecimentos e as tropas, consequentemente, estavam a rações de fome, os hospitais de campanha achavam-se a transbordar enquanto a média de mortes por ferimentos ou por doenças crescia». Foi nestas circunstâncias que o Comando Supremo, aconselhado pelo general Antonov (Alexei), que ocupava os lugares de chefe do Estado-Maior ajudante e de chefe do Departamento de Operações do Exército Vermelho, e o tenente-general, Rokossovsky, concluíram ser, talvez, de considerar a apresentação de um ultimato a von Paulus para que se tentasse evitar a mortandade que o assalto final do Exército Vermelho certamente, provocaria. Aliás, o plano para tal assalto estava pronto e já fora submetido a Staline a 27 de Dezembro. Nele se descrevia que a Frente do Dão teria de destruir 22 divisões nazis cujos efectivos andariam pelos 250 000 homens, e que a linha defensiva principal era constituída por quinze dessas divisões. Entre elas, contava-se três motorizadas e uma ‘Panzer’. O inimigo dispunha, ainda, de 149 outras unidades de várias origens mas de qualidade mal estabelecida.