Três datas e dois apontamentos
3 de Maio: o Primeiro-Ministro dirige-se ao País para comunicar o programa de terrorismo social das troikas: despedimentos, aumento do horário de trabalho e da idade da reforma, cortes nas funções sociais do Estado, na administração interna e na defesa, mais privatizações.
5 de Maio: Paulo Portas, na sua qualidade de presidente do CDS-PP, vai à televisão num dos seus típicos exercícios de equilibrismo. Distribui alfinetadas ao Governo e ao primeiro-ministro, procura passar seco entre os intervalos da chuva, diz que a taxa sobre os reformados é uma «fronteira» que o CDS não passa. Ou seja: subscreve o resto.
12 de Maio: o Conselho de Ministros extraordinário conclui o que a troika estrangeira mandou e que a taxa é mesmo para avançar. Grande surpresa, claro.
Ficamos assim a saber que as outras fronteiras todas que já foram ultrapassadas não afectam nem o CDS-PP nem Paulo Portas. Ficamos a saber também que as fronteiras de Paulo Portas são bastante móveis: todos nos lembramos de Portas-da-lavoura, Portas-dos-ex-combatentes, Portas-dos-contribuintes, Portas-da-segurança, Portas-contra-o-rendimento-mínimo, Portas-paulinho-das-feiras, Portas-dos-reformados. Agora tivemos durante uma semana Portas-contra-o-cisma-grisalho.
No momento da declaração de Portas, terão sido muitos os reformados que, apesar de tudo, terão depositado nele as suas esperanças. Mas não deixa de ser reveladora a reacção da porta-voz do APRE às conclusões do Conselho de Ministros: diz ela que é uma decisão que descredibiliza «os políticos» porque Portas diz uma coisa e faz outra. Ora caramba!, com um bocadinho mais de honestidade intelectual não seria possível dizer que se há alguém que se desacredita é Portas e o Governo?!
A verdade é que a dimensão do descontentamento e da luta acelera e aprofunda as divisões e o isolamento do Governo e de quem o apoia. É ver o corropio de candidatos autárquicos do PSD, cheios de táctica, a fingirem que se distanciam do Governo e a disfarçar o laranja dos cartazes. Se a hipocrisia pagasse imposto, Portas e os outros do género haviam de pagar mais que um trabalhador por conta de outrém português em tempos de pacto de agressão. Também é contra estas manobras e hipocrisias, que querem fazer do povo estúpido, que dia 25 de Maio Belém se encherá de gente a exigir a uma só voz a Cavaco: Governo Rua!