Ao fundo do túnel
Quando, há mais de duas semanas, ruiu em Daca, no Bangladeche, um edifício onde estava instalada uma fábrica de produtos têxteis, a televisão deu a notícia, naturalmente, mas sem lhe dar um destaque especial ou, pelo menos, sem que a atenção das gentes telespectadoras tenha ficado muito atenta ao sucedido. Compreende-se, de resto: desastres, cataclismos, desgraças de vária ordem, são temas quotidianos e preferidos nos telenoticiários, pelo que quase se pode dizer que mais um, menos um, pouco ou nada acrescenta ao volume total de acontecimentos do género e que, perante eles, o público já se tornou malhadiço, como diz o povo de quem já se tornou indiferente a choques e agressões. Só que, nos dias posteriores, foram chegando informações complementares acerca da catástrofe: mortos terão sido mais de mil, feridos e desaparecidos mais do dobro, viram-se imagens dos trabalhos de busca de sobreviventes entre os escombros, foi especialmente tratado o caso de uma mulher que sobreviveu soterrada durante dezassete dias, imagens de um homem abraçado ao que seria o cadáver de uma outra mulher correram mundo por serem especialmente tocantes. Em consequência, a sensibilidade dos telespectadores relativamente à desgraça havida como que se reavivou, e não poderá dizer-se que não havia motivos para isso. É certo que o desmoronamento havia ocorrido em longe terra, que talvez a maior parte dos telespectadores portugueses nem mesmo saiba ao certo onde fica o Bangladeche e a cidade de Daca (quanto ao Bangladeche, talvez sobretudo os já não muito jovens o recordem por ser o título de uma belíssima canção de Joan Baez, mas talvez nem mesmo esses saibam apontar o país no mapa), e bem se sabe que a morte acontecida no prédio onde moramos nos toca muito mais que o cataclismo havido a milhares de quilómetros de distância. Ainda assim, porém, um milhar de mortos e imagens cruéis são qualquer coisa, e a derrocada em Daca acabou por ter lugar na atenção dos telespectadores.
A impressão digital
Não, porém, toda a atenção merecida porque alguma informação terá ficado pelo caminho ou passou despercebida. Concretamente: que o Bangladeche é um dos países mais pobres do mundo, com um rendimento «per capita» inferior a um dólar diário e, contudo, é um grande exportador de produtos têxteis graças ao baixíssimo custo da mão-de-obra local, factor que leva grandes e muito conhecidas empresas ocidentais a transferirem para ali a sua produção condenando ao desemprego os trabalhadores dos seus próprios países. Além do salário de miséria, porém, o operariado têxtil trabalha no Bangladeche em condições degradantes que contribuem para o baixo custo final do produto e, designadamente, a tragédia agora acontecida teve a ver com a inadequação e precariedade das instalações das unidades fabris da indústria têxtil, que são milhares, todas a laborarem na base de trabalho tão mal pago que bem se pode falar em trabalho escravo. Ora, quem sabe disto e é português é muito capaz de ficar a pensar: a pensar que salários de miséria e outros baixos custos de produção, sobretudo os que têm a ver com a protecção dos trabalhadores, correspondem ao pensamento do actual governo português como condições atraentes para o investimento estrangeiro e, porque não?, também o nacional. Note-se que o FMI também andou a mandar por lá, pelo Bangladeche, e que decerto ali terá deixado a sua impressão digital, o que pode estimular alguma reflexão. Talvez que também no Bangladeche o FMI tenha imposto sacrifícios nos salários e outros custos, ali incluindo os decorrentes de instalações adequadas e seguras, pois assim o investimento afluiria e assim se chegaria «ao fundo do túnel», como alguns gostam de dizer. E parece que sim, que o túnel existia e que, por sinal, uma parte dele desabou agora com um fragor ouvido em todo o mundo. Confirmando o que, mais que pressentíamos, já sabíamos de ciência certa: que ao fim destes túneis, quando percorridos à custa da espoliação e de outros sofrimentos dos povos, estão invariavelmente derrocadas e abismos. À espera.