«Um dia os réus serão vocês»

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A estreia – no Teatro Joaquim Benite, pela Companhia de Teatro de Almada – do espectáculo «Um dia os réus serão vocês: o julgamento de Álvaro Cunhal», com encenação e dramaturgia de Rodrigo Francisco, constituiu um momento alto das comemorações do Centenário que estão a decorrer por todo o País. O dia escolhido para a estreia – 25 de Abril – não poderia ser mais apropriado. Tratou-se, com efeito, de levar à cena, no Dia da Liberdade, um dos episódios mais relevantes da resistência antifascista protagonizado por um dos mais destacados intervenientes na luta pela democracia e pela liberdade.

No dia 2 de Maio de 1950, tinha lugar, no Tribunal Plenário da Boa Hora, a primeira sessão do julgamento de Álvaro Cunhal que, preso cerca de 14 meses antes, numa casa clandestina situada no Luso, fora mantido em regime de rigorosa incomunicabilidade: fechado numa cela de quatro por dois metros, onde o sol não entrava, e vigiado por pides 24 horas por dia.

A intervenção de Álvaro Cunhal perante os juízes fascistas constituiu o mais fundamentado e corajoso libelo acusatório contra o regime fascista de Salazar, a sua natureza exploradora e opressora, a sua política de traição nacional, os seus chefes, os seus mandantes externos – e foi, por outro lado, a defesa, igualmente fundamentada e corajosa, do Movimento Comunista Internacional e do Partido Comunista Português.

Ocorreu o julgamento num tempo em que o fascismo português, que nos seus primeiros anos de vida fora apoiado e apoiara a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler, mudara de agulhas após a derrota do nazi-fascismo e assentara arraiais no campo «ocidental», onde foi aceite de braços abertos pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos da América que o apoiarão, sem reservas, até ao 25 de Abril de 1974.

Registe-se que, poucos dias após a prisão de Álvaro Cunhal, é criada a NATO, tendo entre os seus membros fundadores o governo fascista de Salazar; e que, meses depois, após a entrega da Base das Lajes às Forças Armadas dos EUA, o regime fascista português, numa manifestação suprema de hipocrisia, subscreve, em Paris, a Declaração Universal dos Direitos do Homem…

Entretanto, o presidente norte-americano, Truman, dá instruções à Comissão de Energia Atómica dos EUA para desenvolver a bomba de hidrogéneo.

Com tudo isto, a PIDE, antes treinada pela Gestapo, muda de treinador: o FBI passa a «instruir» os agentes da criminosa polícia política do salazarismo.

Na primeira fila do combate ao fascismo, o PCP, superando as difíceis condições criadas pelo clima de guerra-fria e as suas repercussões na vida política portuguesa, impulsiona, organiza e dirige a luta de resistência do povo português, levantando a bandeira da liberdade, da paz e da independência nacional. É, por isso, o alvo preferencial do regime fascista e das suas forças repressivas.

Sucedem-se as lutas dos trabalhadores por todo o País, sempre sob a violenta repressão da ditadura.

Em 2 de Janeiro de 1950, Militão Ribeiro morre na Penitenciária de Lisboa. A 23 do mesmo mês, a PIDE assassina José Moreira com torturas. Em 4 de Abril, a GNR dispara sobre assalariados rurais na praça de jorna de Alpiarça: 15 trabalhadores sofrem ferimentos e é morto o jovem militante comunista Alfredo Lima.

No campo unitário, o Movimento Nacional Democrático (MND) mantém a afirmação das aspirações democráticas mais consequentes.

Por essa altura é criada a Comissão Nacional para a Defesa da Paz que, logo a seguir, leva por diante uma ampla campanha de recolha de assinaturas pelo Apelo de Estocolmo, contra a bomba atómica, por um pacto de não agressão entre as grandes potências.

Por seu lado, os intelectuais intervêm activamente na luta contra o fascismo, quer integrando movimentos da Oposição, quer através da sua obra: na altura da prisão e do julgamento de Álvaro Cunhal, Redol escreve «Reinegros» e a trilogia do ciclo Port-Wine, e Manuel da Fonseca, após a publicação de «Cerromaior», prepara os contos de «O Fogo e as Cinzas», enquanto Lopes-Graça dá andamento às suas «Heróicas» – donde emerge o emblemático «Acordai!», com a sua simplicidade carregada de força revolucionária.

Todos estes acontecimentos estão presentes na memorável intervenção de Álvaro Cunhal perante os juízes fascistas.

E foi tudo isto que esteve no palco do Teatro Joaquim Benite, no excelente espectáculo construído por Rodrigo Francisco, a partir de uma ideia original de Joaquim Benite e tendo como texto essencial essa intervenção.

Um texto que a sensibilidade e o talento de Rodrigo Francisco enriqueceram com a introdução, quer de falas dos juízes do julgamento de Georgi Dimitrov, no célebre Processo de Leipzig, ocorrido em 1933, quer de fragmentos de duas outras obras marcantes de Álvaro Cunhal: «A Estrela de Seis Pontas», uma novela em que Álvaro Cunhal/Manuel Tiago recria a realidade das condições prisionais na Penitenciária de Lisboa, e essa obra maior da história da resistência ao fascismo que é «Se Fores Preso, Camarada», texto paradigmático dos princípios dos militantes comunistas e da sua atitude face à polícia fascista, desde o momento da prisão até ao comportamento no tribunal e durante o cumprimento de pena, passando pelos interrogatórios, a resistência às torturas, ao isolamento, às armadilhas das técnicas de interrogatório da PIDE. Um texto de difícil e complexa adaptação ao teatro, mas que proporcionou ao actor Luís Vicente uma interpretação notável, recriando com talento o discurso de Álvaro Cunhal – discurso de uma actualidade gritante; discurso sereno, calmo, porém de uma urgência que sobreleva e ignora as interrupções dos juízes – dando a cada palavra o seu exacto e rigoroso peso.

As vozes dos três juízes do Tribunal Plenário estiveram a cargo de João Farraia, Joaquim do Carmo e Manuel Mendonça.

E fechou o espectáculo com o Coro dos Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa, interpretando primorosamente uma Heróica – não por acaso, certamente, o «Acordai!», de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes-Graça – que bisaram, a pedido de uma assistência entusiasmada e comovida, que encheu a sala do Teatro Joaquim Benite, e onde podia ver-se vários dirigentes do Partido de Álvaro Cunhal, entre eles o Secretário-geral, Jerónimo de Sousa.

No texto do Programa do espectáculo, pode ler-se a dada altura: «Temos confiança – para retomar uma feliz formulação de Álvaro Cunhal quando, certa vez, questionado a propósito do futuro do País, distinguiu a vaga e crente esperança da mais concreta e afirmativa confiança – de que Joaquim Benite, autor da ideia original a que agora se deu corpo, teria procurado fazer assim. Com poesia, com afecto, com coragem, paredes-mestras eternas do Teatro de Arte. Este espectáculo é-lhe dedicado.»

Poesia, afecto, coragem: eis, de facto, o segredo do êxito deste magnífico espectáculo imaginado por Joaquim Benite e concretizado, de forma exemplar, por Rodrigo Francisco e Luís Vicente.



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