Recidiva

Correia da Fonseca

O que mais apetece é falar dele. Numa perspectiva exclusivamente televisual, entenda-se. Começando talvez por dizer que ele é feio. Ou que talvez tenha ficado assim com o tempo. E com o uso. Mau uso, por sinal. E isto de ser feio é importante quando é de televisão que se está a falar porque, bem se sabe, televisão é imagem. Neste infeliz caso, imagem é aquele rosto duro e fechado, como que talhado em madeira, com o lábio inferior tendente a formatar-se em arco no que parece um trejeito de desdém pela realidade circundante. Depois há o som, isto é, a voz: um pouco desumanizada, como que emprestada por um boneco de corda e, como igualmente se sabe, isto do som também tem muita importância na televisão. Contudo, o mais importante de tudo em TV e fora dela não é a imagem nem é o som, é o que se diz e o que se faz, e aí é que a infelicidade, chamemos-lhe assim, é completa. Por isso se compreenderá que todo o conjunto suscite a vontade de vir aqui falar dele, sobretudo tão pouco tempo decorrido sobre a sua mais recente «performance» na televisão, isto é, em casa de cada um de nós. É sabido como foi naquela manhã de gala: um povo quase inteirinho apanhado pela angústia, uma boa parte dele já mergulhada no desespero enquanto outra abala para longes terras na esperança talvez enganosa de aí poder respirar um pouco, e ele, o da cara de pau e voz estranha, a dizer que assim afinal estará bem e que assim terá de continuar. E a gente, enquanto olha e o ouve, a imaginar uma outra voz a repetir um «Ai aguenta, aguenta!» que é afinal outra maneira, embora mais sucinta, de dizer a mesma coisa e que tão mal caiu na generalidade das gentes chocadas pela brutalidade.

Grave e vergonhosa

Temos, pois, que o que mais apetece é falar dele e, falando dele, registar aqui um desabafo consubstanciado em rejeição, indignação e protesto, sobretudo por se tratar de quem é. Exactamente por isso, porém, por ser ele quem é, será talvez melhor mudar de assunto e falar de outra coisa aliás importante e também muito presente na TV pelas notícias que nela aparecem: a santa cruzada em curso contra os infiéis entrincheirados na Síria. Vai a cruzada já em dois anos e a coisa não se resolve. Perante isto, tornou-se evidente que será preciso reforçar a dose e desencadear a intervenção de uma «força internacional», pseudónimo adoptado, certamente por modéstia, pelo poder militar norte-americano abrilhantado por presenças minúsculas de militares de outros países. É uma solução que, em princípio, dará resultado, mas que tem um inconveniente: a necessidade de ser introduzida por um pretexto suficiente. Durante algum tempo terão sido mobilizados alguns crânios para a busca desse pretexto, mas o esforço não conseguiu melhor do que a repescagem de uma alegação já usada e desprestigiada: os infiéis possuem «armas de destruição maciça», neste caso armas químicas proibidas por convenções internacionais, e por isso constituem um perigo cuja anulação tudo justificará se-deus-quiser. É certo que ainda não estão esquecidas as «armas de destruição maciça» que justificaram a invasão do Iraque e a subsequente tragédia ainda em curso: afinal as tais armas não existiam, eram apenas armas de mentira, o que obviamente enfraquece um pouco a eficaz utilização de idêntico pretexto no caso da Síria. Será uma espécie de recidiva de doença já conhecida, grave e vergonhosa, e cujos efeitos são terríveis. Mas é claro que o que tem de ser tem a força toda quando estão em jogo grandes valores ocidentais: o cheiro do petróleo, o cerco ao Irão acusado de ter a veleidade de ser uma «potência nuclear» como o Paquistão e Israel, a erradicação da única base militar russa em toda a região. Se séculos atrás Paris valia bem uma missa na avaliação de Henrique IV, o Médio Oriente vale sem dúvida uma aldrabice imposta à escala mundial pelos grandes media, que para isso é que eles servem. E a televisão portuguesa também, é claro, que não somos menos do que os outros. Pelo que é mais do que legítimo esperar o acto seguinte da tragédia: a intervenção da tal «força internacional». A falar (e a matar) em língua inglesa na versão americana.



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