Cinco chineses distantes

Correia da Fonseca

Os telenoticiários informaram-nos há dias de que morreram na China distante, embora hoje já não tão distante quanto o foi em tempos, cinco cidadãos chineses. É grave e triste? É claro que sim. A morte de um ser humano é sempre triste e grave, quer ocorra na Ásia longínqua ou na Espanha aqui tão perto, no círculo polar ártico ou na Patagónia. Acresce que a morte daqueles cinco chineses foi causada, ao que parece, pelo vírus da chamada «gripe das aves» que já em anos anteriores suscitou algum alarme cuja justificação felizmente não veio a confirmar-se. Porém, como será lembrado, isto das gripes envolve questões complementares que nunca ficaram completamente esclarecidas: ao combate a surtos gripais, que não o «das aves», atrelaram-se negócios relacionados com uma falada superprodução de vacinas nunca escoadas, cumplicidades que terão contaminado figuras da própria OMS, campanhas promocionais do consumo de vacinas já em fase de desnecessidade, muito dinheiro inutilmente gasto, muito dinheiro indevidamente arrecadado. De onde um clima de suspeição que sempre fica um pouco ligado a notícias sobre o aparecimento de gripes, sejam elas quais forem, e também a consequente apetência por vacinas que protejam as populações. É certo que a tal «gripe das aves» nunca chegou a assumir a dimensão de epidemia com vocação migratória, digamos assim, nem foi alguma vez noticiado que tenha sido obtida uma vacina a ela adequada, talvez por impotência científica, talvez porque o número de vítimas por ela causado em anos anteriores não impôs o desencadear de mais intensos esforços laboratoriais. Alguém mais suspeitoso poderia porventura admitir que o limitado impacto dessa gripe não chegou a justificar um grande projecto negocial que incluísse pesquisas mais aturadas e, portanto, investimentos mais vultosos, mas estar-se-ia então, talvez, perante um mero caso de má-língua. De qualquer modo, porém, esta actual presença gripal «das aves» limita-se a cinco casos. Ou, mais exactamente, a seis, porque num dia seguinte os telenoticiários disseram-nos de uma sexta vítima, também chinesa. Mais uma notícia triste, sem dúvida. Mas nada que indicie o arranque de um surto que ameace a China, a Ásia, o mundo, embora se compreenda, naturalmente, que os «media» estejam atentos a essa eventualidade. Mas, de preferência, evitando suscitarem inquietações prematuras e escusadas.

Porque há outras mortes

Porém, já que a comunicação social em geral e designadamente a televisão se propõem falar-nos das mortes que ocorrem no mundo, a notícia do falecimento daqueles cinco chineses distantes provocou-me reflexões porventura tontas. É que, como se sabe, todos os dias morre muita gente por esse mundo fora e não pela acção de um raro vírus gripal nem, dizendo de um modo mais amplo, pelo que é designado por «morte natural», sem que, contudo, os «media» nos dêem conta disso. Podia falar, por exemplo, dos que todos os dias morrem no Afeganistão, civis ou não, só tema de notícias quando as mortes ocorrem em circunstâncias especialmente aberrantes (uma festa de casamento varrida a metralha, um magote de crianças confundido com um grupo de guerrilheiros, coisas assim), talvez porque já se considera normal a morte provocada pela defesa dos Valores Ocidentais. Mas parece que poderia ser especialmente justo que, embora apenas por estimativa na impossibilidade de números exactos, os telespectadores fossem informados de outras mortes acontecidas dia após dia sobretudo em certas zonas do mundo. De fome, directa ou indirectamente. De doenças provocadas pelo estado de miséria a que populações inteiras estão condenadas. Em certas zonas, pelas consequências da proibição eclesiástica do uso de anticonceptivos que favoreceriam práticas pecaminosas. Embora ainda com a mesma utilização de estimativas, poder-se-ia ainda informar os telespectadores de quantos entre os falecidos teriam sido crianças. Retomar-se-iam depois as rotinas que as operadoras de TV há muito adoptaram para atrair audiências e garantir as anestesias cívicas dos telespectadores: programas de humor palerma, novelas de amores e intrigas, expedientes similares. E, com alguma sorte, todos dormiriam bem.



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