Países emergentes apostam em África

Carlos Lopes Pereira

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Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, cinco potências económicas emergentes, conhecidas por BRICS, decidiram avançar com a criação do Banco de Desenvolvimento, uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional, instrumentos de domínio imperialista. A nova instituição financeira deverá ter um capital inicial de 50 mil milhões de dólares e poderá ter a sede na África do Sul.

A decisão daquele grupo de países foi adoptada na sua 5.ª cimeira de chefes de estado e de governo, que decorreu no final de Março, em Durban, com a participação dos presidentes Dilma Roussef, Vladimir Putin, Xi Jinping e Jacob Zuma e do primeiro-ministro indiano Manmohang Sing.

Os BRICS representam hoje 25 por cento do Produto Interno Bruto global e 40 por cento da população mundial. Dentro de oito anos, em 2020, as economias da China, Índia e Brasil suplantarão o PIB conjunto dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Itália.

Segundo o «Relatório do Desenvolvimento Humano 2013», divulgado agora pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), os países do Sul desempenham um papel cada vez mais importante na economia internacional, com um crescimento superior à média mundial. Esse crescimento deve-se em boa parte ao incremento das trocas comerciais Sul-Sul. Por exemplo, a China e o Brasil estabeleceram recentemente um acordo comercial no valor de 30 mil milhões de dólares.

Em Durban, os dirigentes brasileiro, russo, indiano, chinês e sul-africano participaram também no Fórum de Diálogo BRICS-África, com a presença de uma dezena de chefes de estado africanos, entre os quais Eduardo dos Santos, de Angola, e Armando Guebuza, de Moçambique.

Nesse fórum, o presidente do Senegal, Macky Sall, que lidera a Nova Parceria para o Desenvolvimento (NEPAD) – o mecanismo da União Africana que procura dinamizar o desenvolvimento e a integração económica do continente –, apresentou 10 grandes projectos candidatos a financiamento. Figuram entre eles uma grande barragem na República Democrática do Congo, a ligação rodoviária entre Dakar e Djibuti (atravessando o Sahara e ligando o continente do Atlântico ao Índico), uma auto-estrada entre a Costa do Marfim e o Togo e uma outra dos Camarões ao Chade.

A África move-se, pois. Já ninguém a considera «um continente perdido»...

 

A África aos africanos

 

A cimeira dos BRICS e a natureza dos laços entre as potências emergentes do Sul e a África foram pretexto para declarações de africanos e chineses.

O presidente Armando Guebuza classificou essas relações como «de amizade e cooperação» e acentuou que os países africanos não querem ser colonizados de novo.

A directora do NEPAD, Lynette Chen, acusou «as instituições de Bretton Woods», como o FMI e o Banco Mundial, de investirem em África «com muitas condições», face a governos africanos incapazes de travar tais exigências. Situação que está a mudar com os investimentos oriundos de países do Sul, em condições mais favoráveis. Testemunhando essa tendência, o comércio China-África atingiu os 200 mil milhões de dólares em 2012.

O recém-eleito presidente chinês, Xi Jinping, aproveitou a deslocação à África do Sul para visitar a Tanzânia e o Congo. Em Brazzaville assegurou que o seu país deseja contribuir para a paz e o desenvolvimento em África. Em Dar-es-Salam disse que «a África pertence ao povo africano» e que nas relações com o continente «todos os países devem respeitar a dignidade e a independência de África».

 

Paris deixa cair aliado...

 

É claro que os Estados Unidos e seus aliados não vêem com bons olhos a cooperação entre os BRICS, sobretudo a China, e os países africanos. O imperialismo não aceita que sejam postos em causa os seus planos de dominação política e militar e de pilhagem económica de África – como o demonstraram a agressão da NATO à Líbia e a intervenção militar francesa no Mali.

Ou como mostra o golpe de 24 de Março na República Centro-Africana, onde rebeldes da coligação Seleka tomaram o poder, obrigando o presidente Bozizé a fugir. Isto, perante a passividade das tropas francesas estacionadas em Bangui, que deixaram cair, literalmente, o até então aliado de Paris.

O chefe dos insurrectos, Michel Djotodia, proclamou-se presidente, pediu ajuda militar à França e formou um governo de «união nacional».

O golpe de estado na antiga colónia francesa – rica em diamantes e urânio – foi condenado pela União Africana, pela ONU, pela União Europeia e até pelos Estados Unidos. Mas o certo é que o novo líder do país já anunciou que vai organizar eleições e entregar o poder – dentro de três anos...



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