Contas que contam

Anabela Fino

Já não bastava o sr. Ulrich do «aguenta, aguenta» e das comparações com os sem abrigo – como se ele soubesse o que é ser sem abrigo! –, temos agora o sr. Ulrich na versão preocupado com a sociedade portuguesa, que de súbito descobriu estar «entristecida, desmotiva e descrente», a fazer apelos no estilo «façam qualquer coisinha ou isto ainda acaba mal para nós», justamente na altura em que o BPI do sr. Ulrich anunciou ter amortizado mais uma tranche de 200 milhões de euros, coisa pouca, dos 1200 milhões que foi buscar ao Estado para se recapitalizar e que fazem parte daquela tranche de 12 000 milhões destinados à banca pela troika, no âmbito do chamado Programa de Assistência Económica e Financeira que os portugueses estão a pagar com língua de palmo. Preocupações legítimas, as do sr. Ulrich, que no ano passado só contabilizou 249,1 milhões de euros de lucro no seu banco, facto certamente inspirador da lapidar tirada do «aguenta, aguenta».

Pois já não bastava Ulrich preocupado e queixoso dos juros que tem de pagar ao Estado, eis que esta semana se lhe juntou o sr. Belmiro de Azevedo a declarar que o «poder não está no dinheiro, este é «apenas um instrumento que aparece», o poder está sim nos «valores». Profundo pensamento este, vindo de um homem rico, mas nem outra coisa seria de esperar de um orador convidado do Clube dos Pensadores, tertúlia com poiso em Vila Nova de Gaia. E porque o que conta são os «valores», o sr. Belmiro de Azevedo não hesita em afirmar que «se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém», explicando que «há muitas actividades, nomeadamente no sector primário, em que a mão-de-obra, que Portugal tem muita e em excesso, é indispensável para que possam continuar». Ou dito de outro modo, que a «economia só pode pagar salários que decorram de uma certa realidade». O sr. Belmiro de Azevedo não chegou a dizer que aos escravos nunca faltava trabalho e também não falou do comércio a retalho, não se sabe se por esquecimento, por modéstia ou se porque nos seus supermercados – onde vigora uma certa realidade que faz aparecer dinheiro – o que conta, como afirma, é a «ética Sonae», a tal que lhe abre as portas, a ele, não só dos clubes de pensadores mas também do clube dos mais ricos do mundo, enquanto os outros ficam a deitar contas à vida.

Dir-se-ia desnecessário pôr mais na carta, mas o sr. Belmiro de Azevedo não se ficou por aqui e brindou-nos ainda com outras pérolas do seu pensamento, como a de equipar os protestos dos trabalhadores e do povo português a um «Carnaval mais ou menos permanente», coisa que de resto não só não o incomoda como o deixa muito sossegado. «Enquanto o povo se manifesta, a gente pode dormir mais descansada. O pior é quando não se manifesta», afirmou o sr. Belmiro de Azevedo, que é capaz de saber muito de panelas de pressão mas percebe pouco de luta de massas, o que o aproxima da convicção do «aguenta, aguenta» do sr. Ulrich. Muitos ao longo da História acreditaram que ao povo basta «pão e circo», ou «fado e futebol», tanto dá. Enganaram-se. E na melhor da hipóteses perderam o sono.



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