Os carros

Correia da Fonseca

Os agentes da troika de visita a Portugal dispensaram-se de no passado sábado irem trabalhar, passe a expressão: ao que parece e de resto a televisão informou, evitaram assim algum desagradável encontro com manifestantes que os esperassem. Foram prudentes, de outro modo arriscar-se-iam a ouvir cantar a «Grândola, Vila Morena», cantiga que se adivinha não ser da sua predilecção, sendo quase certo que lhe prefiram o velho «Deutschland Uber Alles» que nos seus melhores dias encantou os ouvidos nazis e cujas palavras manifestamente se mantêm agora como divisa da política do eixo Berlim-Bruxelas para o conjunto dos territórios vulgarmente designados por «Europa». Não foram, pois, trabalhar no passado dia 2, o que aliás seguramente não lhes fez diferença, não apenas porque a folga não implicou para nenhum deles qualquer corte nas suas remunerações mas também porque, seguros de que as suas ordens serão fielmente cumpridas pelo Governo português, não têm pressa. Terão tido porventura a curiosidade de olharem nos televisores a dimensão das manifestações que naquela tarde encheram as principais ruas de Lisboa, do Porto e de mais umas dezenas de cidades, mas parece improvável que se tenham sentido intimidados pela dimensão e pela veemência que as caracterizaram. O mais natural, de resto, é que sejam cavalheiros abundantemente abastecidos de desprezo pelos povos em protesto, que talvez designem por «populaça» ou vocábulo equivalente, e não tenham sido percorridos por um mínimo arrepio que de qualquer modo não seria de medo, até porque não havia o mínimo motivo para isso, mas poderia ser de emoção, como decerto aconteceu com telespectadores de muito diferente extracção. Porque aquelas imagens, ao longo de horas transmitidas pelos canais de notícias distribuídos por cabo (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24) mas não pelos canais ditos terrestres a que todos têm acesso, foram na verdade emocionantes. Mas só para quem está disponível para a específica emoção suscitada pelo espectáculo verdadeiramente belo de um povo indignado que rejeita a condenação à miséria e à fome que lhe é decretada por poderes estrangeiros e executada por nacionais que se prestam ao ignominioso papel de «gauleiters».

Calados como carrascos

No sábado não foram trabalhar, pois, os enviados do estrangeiro, mas haviam ido nos dias precedentes, e os diversos canais transmitiram então imagens da sua chegada ao local onde viriam dar as suas ordens. E porque telespectador é criatura que abastece a sua curiosidade tanto com as palavras que ouve como com as imagens que vê, esses breves momentos de reportagem acabaram por ter algum conteúdo informativo que se tornou interessante. Um após outro, chegavam os carros, melhor seria dizer os carrões, negros como carros funerários, sólidos como blindados. E todos de fabrico alemão. Tornavam-se assim emblemáticos do poder que nos esmaga, como uma espécie de confissão involuntária. O telespectador não sabia, não sabe, se aqueles carros haviam viajado de longe conjuntamente com os que então saltavam deles sem pressas, pesados como senhores ajoujados de poderes, calados como carrascos que chegam para cumprir as suas tarefas macabras, ou se já por cá estavam e haviam sido gentilmente postos à disposição dos invasores enquanto por cá permanecessem. Neste último caso, teriam sido importados por bom preço e pagos com os impostos dos portugueses, num exemplo de como, na verdade, por vezes se viveu por cá «acima das nossas possibilidades» mas para proveito de uns poucos e ónus da esmagadora maioria. E porque, de qualquer modo, carrões negros e alemães como aqueles estão longe de serem raros nas ruas e estradas portuguesas, estando naquele caso a raridade apenas situada nos sujeitos transportados, assumiam também a função involuntária de denúncia. Denúncia de desigualdades muitas vezes chocantes e por vezes indignantes. Da falsidade da lenda dos «sacrifícios para todos». Do tendencial desastre económico consequente à total abertura das fronteiras para a importações de quaisquer bens, mesmo os de luxo, mesmo os que só sirvam para conforto e proveito dos que não temem as crises porque as crises até podem ser o seu negócio.



Mais artigos de: Argumentos

Luta pela Soberania e pela Constituição (conclusão)

Embora alguns progressistas tivessem, em 1808, aquando da 1.ª invasão francesa, colocado a questão da elaboração de uma Constituição, tudo indica que a tentativa revolucionária de 1817 teve sobretudo a ver com a odiada presença inglesa e com os métodos...

Combate à fome e filantropia milionária

«Quando o Estado paga o nosso tratamento hospitalar, a nossa educação, a nossa pensão de reforma ou invalidez, o subsídio de desemprego ou o abono de família, está a dar-nos o que é nosso de direito. Quando contribuímos com os nossos impostos para a...