Crise eclesiástica e as outras crises
«O papa Bento XVI pediu que uma autoridade política global ordene a economia mundial e que haja maior regulação governamental das economias nacionais para tirar o mundo da actual crise e evitar que ela se repita... Há a necessidade urgente de uma autoridade política verdadeira em todo o mundo… Tal autoridade teria de ser regulamentada por lei e investida de forças efectivas para garantir segurança a todos, consideração pela justiça e respeito pelos direitos» (Jornal O Globo, Novembro de 2012).
«O futuro do cristianismo traçar-se-á segundo a forma como a Igreja conseguir libertar-se da nostalgia da cristandade para se abrir a uma compreensão inédita do seu papel no mundo e na história. Iremos ver se Ratzinger se virá a revelar como um papa pluralista, à escuta e ao serviço de uma humanidade povoada por uma multidão de imprevistos singulares» (teólogo dominicano Christian Duquoc, 2001)».
«O que pronunciou a sentença de morte sobre o papa Bento XVI foi a sua implicação pessoal nas práticas de suborno e lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, também conhecido como Instituto de Obras Religiosas ou IOR. Assim como essas ligações sujas deram à facção anti-Ratzinger do Colégio de Cardeais a necessária alavanca de que necessitavam para despejarem do trono papal o obstinado alemão» (Kevin D. Annett, escritor canadiano e pastor da Igreja Unida do Canadá).
Sobre as causas da renúncia do papa chovem, agora, as justificações. O tempo será juiz da verdade, mas uma coisa esta decisão extrema e inesperada revela: a Cúria Romana, bastião da hierarquia, está à beira da ruptura. Só assim se entende que o «homem de ferro» que o ex-inquisidor tem sido, se renda de repente e renuncie. Mesmo que doentes e velhos, outros papas souberam resistir a essas condições adversas.
Fala-se muito repetidamente nos escândalos da pedofilia eclesiástica. Fala-se sobre isso agora, quase tanto quanto até aqui se calou. São factos bem conhecidos de todos, tolerados ao longo de séculos e séculos e que, de repente, se reconhecem só para distrair as atenções do quadro geral que o Vaticano vive. Há escândalos por toda a parte, envolvendo eclesiásticos e leigos, sociedades secretas e fundações, hierarquias religiosas e capitalistas, numa imensa teia de actos ilegais e de crimes. Tocam as mais diversas áreas: as lavagens de dinheiro, os armamentos, a pornografia, as empresas de offshore, os óbolos de S. Pedro, o aproveitamento das relações diplomáticas, o tráfico de influências e um cortejo infindável de conspirações subterrâneas. O presidente do Banco do Vaticano foi recentemente demitido e o próprio banco está a ser submetido a uma auditoria. As relações ocultas entre os magnatas que originam a miséria e a filantropia vão sendo evidentes. A hierarquia diz combater a miséria enquanto protege e se entende com as grandes fortunas.
Como se tudo isto não fosse suficiente, surgiu agora no seio da Cúria o esboço da formação de facções que disputam o poder, com contornos mal definidos mas que revelam a estrutura eminentemente capitalista do Vaticano. Um destes lóbis é encabeçado pelo cardeal Angelo Sodano, ex-secretário de Estado do Vaticano e decano da Cúria, franciscano; o outro, tem como vulto principal o cardeal Tarciso Bertone, actual secretário de Estado da Santa Sé, considerado como braço-direito de Bento XVI e salesiano. Ambos os grupos defendem a globalização e a instauração de uma Nova Ordem Mundial, objectivos finais do neocapitalismo no seu estádio supremo monopolista. Ambos divergem apenas no plano estratégico.
A caótica situação interna do Vaticano ainda mais se agravou com o estranho «Caso do Mordomo» ou «Vaticanoliks» no qual documentos «roubados» (?) lançam alguma luz sobre as suspeitas relações do papado com os mundos da política, do capital e do crime. Representaram para Ratzinger o «golpe de misericórdia».
Quando se fala em crise geral do capitalismo, logo se diz que ela traduz uma longa série de crises sobrepostas – na economia, nas finanças, na cultura, etc. Sem dúvida que há agora que juntar a este leque a crise religiosa que não é apenas monopólio da Igreja católica mas também corrói todas as religiões monoteístas. Tal como, aliás, está a acontecer no sistema capitalista mundial.
Os crentes têm duros combates a travar, fora e dentro das suas próprias instituições. Verificarão que o movimento comunista internacional se encontra sempre a seu lado nos episódios da luta de classes em curso.