O conluio
Na informação que a TV diariamente nos oferece, como aliás também fora dela, o grande escândalo da passada semana foi o da divulgação de um relatório elaborado por gente do FMI que por cá andou ou anda ainda. Chamar-lhe relatório é favor, na verdade trata-se de um plano de assalto ao que ainda resta ao povo português de possibilidades de sobrevivência, a executar, como aliás é costume, para maior proveito e glória dos que o vampirizam com crescente brutalidade. A convergência entre o que no suposto relatório é preconizado e as muitas medidas funestas que o governo Passos Coelho tem vindo a tomar é de tal modo evidente que logo emergiu a natural suspeita de que entre a rapaziada no Governo e estes rapazes do FMI terá havido, ainda mais que cumplicidade, um expresso pedido dos desgovernantes portugueses para que fosse produzido pelos seus comparsas um documento que justifique a destruição do que resta do chamado Estado social. Já é bem sabido que, nesta matéria, o objectivo final do Governo é o de não deixar pedra sobre pedra, pelo que a suspeita mais do que se justificava. Para mais, foi divulgado oficial ou oficiosamente ter havido diversos contactos e reuniões entre ministros portugueses e técnicos do FMI porventura não exageradamente competentes mas decerto muito dóceis perante desejos e pedidos dos seus clientes. Perante isto, e porque mesmo em tempos de destruição do ensino os cidadãos portugueses ainda sabem somar dois mais dois não apenas em sentido literal como também em acepção metafórica, logo se revelou altamente provável que o relatório, ou lá o que é aquilo, tenha sido feito em conluio e à medida dos interesses da empresa Passos Coelho & Associados que assim passaria a dispor de uma espécie de álibi que a inocentaria de novos crimes ainda em fase de desejo e projecto. De facto, estes jovens do FMI são uns queridos, fazem tudo quanto se lhes pede desde que, bem entendido, o que se lhes pede vá no sentido de tornar o povo ainda mais pobre e a sobreexploração capitalista ainda mais dura.
O PM e a Bíblia
Conhecida a composição do cozinhado, logo na TV se multiplicaram as discordâncias e acerbas críticas vindas de todos os quadrantes, incluindo os que em princípio corresponderiam à área de apoio ao Governo. Terão sido em dose e em tom significativamente superiores ao que o Governo esperava, pelo que os telespectadores viram e ouviram Passos Coelho, falando nos Açores, a garantir que o tal relatório não é a Bíblia. Esta invocação das Escrituras parece indicar que o senhor primeiro-ministro tem por elas apreço e respeito, o que pode revelar-se fecundo se corresponder a sentimentos muito sérios porque na Bíblia pode Coelho encontrar, se se der ao trabalho de lhe lançar umas olhadelas, ensinamentos que serão de grande utilidade para si próprio e mais ainda para o povo português: a recusa do farisaísmo e a rejeição dos fariseus, o pouco apreço pelos ricaços e uma terna solidariedade para com os pobres, a informação de que no fim das contas o crime não compensará, a nunca de mais citada «fome e sede de Justiça» que o testemunho de Mateus constituiu em legado para toda a posteridade, coisas assim. De resto, está Passos Coelho em aliança com um partido que se proclama não apenas democrático, o que já não é mau, mas também cristão, o que será ainda melhor se corresponder a uma orientação tomada a sério, por sinal ainda não vista na prática sem que contudo se deva perder a esperança de que a vejamos um dia, sobretudo se acreditarmos em milagres. De qualquer modo, não parece má companhia, podendo até ser eventualmente moderadora de brutezas e inescrúpulos que parecem ser a matéria-prima do empenhado trabalho do senhor primeiro-ministro e do seu incomparável ministro das Finanças cujos soletrantes talentos é bom não esquecermos. Infelizmente, porém, por agora parece Coelho estar mais ligado ao Demo, que parece inspirar-lhe as más e feias acções que todos os dias conhecemos pela TV antes mesmo que elas nos batam à porta. Pelo que lhe aconselharíamos a ter cuidado. Porque o Inferno pode estar à sua espera, impaciente. Literalmente em brasas.