O secretário

Henrique Custódio

Um senhor com cara de Vale e Azevedo, de seu nome Fernando Leal da Costa e que ocupa o cargo de secretário de Estado da Saúde, debitou no passado fim-de-semana os seguintes dizeres: «Não basta só cobrarmos impostos. É preciso que as pessoas façam alguma coisa para que recorram menos aos serviços [de Saúde]». Como? O cavalheiro responde: «A maneira mais eficaz de recorrerem menos aos serviços é prevenirem mais as suas doenças». E exemplifica: «Em tabaco são quase 500 milhões de euros por ano, com álcool são quase 200 milhões, com a diabetes são quase 100 milhões de euros em medicamentos e estou a falar da diabetes Tipo 2, que é eminentemente prevenível».

Em relação ao tabaco e ao álcool, se o senhor secretário da Saúde supõe que as suas arengas calibradas a milhões de euros retrairão alguém de fumar ou/e de beber, é porque toma o País por tolo.

Quanto à diabetes (e outras doenças), a coisa é mais séria. Tão séria, que se o sr. secretário fosse realmente sério no que diz sobre medicina preventiva, propunha uma política em vez de palpites morais.

Um responsável pela Saúde que atira a responsabilidade da prevenção de doenças para o alvedrio dos cidadãos evidencia que nada quer saber de medicina preventiva, que despreza o Serviço Nacional de Saúde trazido pela Revolução de Abril e, decorrentemente, o povo inteiro para que ele foi criado.

Demonstra igualmente que a sua visão política para uma questão estratégica como a Saúde consiste numa regressão às alfurjas da revolução industrial do século XIX, que teve como herdeiro natural o desumano mercantilismo da Saúde nos EUA – o tal que o presidente Obama procura, hoje, timidamente amenizar.

Portanto, a cabeça privilegiada do sr. secretário ignora a função social do Estado na garantia e salvaguarda do direito à Saúde para todos os cidadãos, apesar de ser um imperativo constitucional e uma conquista civilizacional presente em toda a União Europeia.

Acontece que o sr. secretário é médico e, por sinal, carregado de especializações, nomeações, direcções e etc., o que poderia tornar bizarras estas posições sobre a Saúde.

Todavia, ao ler-se-lhe no currículo que fez o «Programa de Alta Direcção de Instituições de Saúde da Escola de Direcção e Negócios (AESE)» a coisa torna-se clara: efectivamente, este doutor tão prendado limita-se a ver a Saúde como um negócio.

Já agora, pode juntar-se aos seus colegas norte-americanos, que há muito praticam as suas teses sobre Saúde.

E, de caminho, também deverá com eles fazer o «Juramento de Hipócritas» que, pelas terras do Tio Sam, costuma substituir o de Hipócrates.

Do que não há dúvida é que este secretário está ao nível do primeiro-ministro Passos, que o acolheu no seu reaccionário Governo.

Separa-os a quantidade de graus académicos que o sr. secretário acumulou a mais, mas que interessa isso, num tempo em que ministros como Miguel Relvas – outra luminária – tiram licenciaturas a pataco?



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