Paladinos da hipocrisia
Indignação, revolta e perplexidade são os sentimentos mais comuns quando se lê o recente artigo de um tal Paulo Barros Vale (fundador e primeiro presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários) publicado no JN. Com o pretexto de evocar uma homenagem póstuma a Eurico de Melo, são relatadas acções de um pretenso Comité Português de Solidariedade com os Movimentos Democráticos do Leste Europeu no final dos anos 80; nomeadamente as ocorridas em Praga (entrega de 50 000 rosas na Praça de São Venceslau e a oferta de um carro a Vaclav Havel) e Bucareste (oferta de mantimentos, cobertores e outros tipos de ajuda).
Essas supostas «missões humanitárias» envolvendo e empregando meios colossais (alguns deles estatais, como um avião da Força Aérea com as cores da Cruz Vermelha, com a cumplicidade de Eurico de Melo, então ministro da Defesa), chocam e ferem a dignidade dos cidadãos portugueses, especialmente os residentes, diplomados e ex-bolseiros, que por essa altura viviam nesses países. Antes, já o actual ministro da Defesa Nacional – Aguiar-Branco –, se tinha também vangloriado de ter feito parte desse «comando» de aventureiros.
Ignoram esses falsos e hipócritas paladinos da liberdade que, nessa mesma altura, eram os portugueses residentes em alguns desses países (nomeadamente, na ex-Checoslováquia!), alvo de uma brutal e intolerável ofensiva de intimidação e retaliação por parte dos novos governantes. As anacrónicas e persecutórias medidas, que na altura eram sistematicamente cometidas pelo novo «poder democrático» contra os estudantes estrangeiros, e em particular, contra toda a comunidade estudantil portuguesa, incluíam o aumento desmesurado do custo de vida e das condições de vida escolares, chegando ao ponto de recusarem a atribuição das passagens de regresso, em clara e flagrante violação dos acordos estabelecidos aquando da atribuição das bolsas de estudo.
A campanha de intimidação e de constante pressão psicológica exercida contra a comunidade estudantil (e não só, também algum pessoal da nossa embaixada conheceu essa face retaliatória) foi intensa e deplorável. Por isso mesmo, revolta saber que toda essa campanha foi promovida e incentivada por supostos «democratas de algibeira», que mais não são do que abutres da mentira e da hipocrisia; e mais grave ainda, a utilização de dinheiros públicos portugueses usados nessa brutal ofensiva e nos intoleráveis atentados praticados contra cidadãos portugueses que apenas pretendiam estudar em paz.
Por tais razões, não poderia calar a minha voz, nem abdicar de repudiar e denunciar esses senhores desprezíveis e indignos, e que, obviamente, não podem ser merecedores de qualquer respeito ou consideração. A História não os absolverá!