No mesmo comboio
A luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos, contra os cortes salariais e nos subsídios, é justa, como justa é a luta em defesa de um transporte ferroviário ao serviço das populações, salienta o SNTSF/CGTP-IN.
Os juros levaram 105 milhões de euros em seis meses
«Basta de roubos! Utentes e trabalhadores – a mesma luta!» – proclama o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, que na semana passada publicou uma mensagem, dirigida a quem utiliza o serviço de transporte em ferrovia, na qual explana os motivos por que afirma que «a CP está a ser destruída pelas políticas deste Governo do PSD/CDS, que todos os dias é apelidado de Governo de “ladrões e gatunos”, pelo muito que roubam e pelo muito que estão a destruir».
«No sector ferroviário, tal como nas outras empresas de transporte, a luta de utentes e trabalhadores é a mesma», salienta o sindicato, da Fectrans/CGTP-IN, explicando que se trata de lutar «contra uma política que procura explorar ambos» e que «essa convergência na luta é decisiva para que de facto as coisas mudem».
No documento, publicado no sítio do sindicato na Internet (www.sntsf.pt), é chamada a atenção do utente para alguns factos. Por exemplo:
- há menos circulações, mas os bilhetes e os passes estão muito mais caros; os ferroviários estão a ser roubados em cerca de 30 por cento do salário que têm no contrato de trabalho (cortes dos dois subsídios e do valor do trabalho nocturno, em dia de descanso e feriado e das horas extraordinárias); e, no primeiro semestre deste ano, a CP pagou 105 milhões de euros em juros, mas nos salários de milhares de ferroviários gastou apenas 41,7 milhões.
- em muitas situações, a própria administração da CP, ao mesmo tempo que culpa os trabalhadores em luta, manda suprimir comboios, havendo pessoal para os fazer;
- a CP reduziu oferta, aumentando os custos dos títulos de transporte e obrigando os passageiros a viajar em comboios superlotados, como sucede na Linha de Cascais, com a retirada dos comboios da «família São Pedro»;
- a CP gasta milhões, a alugar material circulante em segunda mão à Renfe, com a manutenção feita em Espanha, penalizando os utentes com material degradado e encerrando oficinas e despedindo trabalhadores da EMEF.
Acerca de borlas
A propaganda em torna das viagens gratuitas nas empresas públicas de transportes, reavivada a propósito da intenção da sua retirada por via do Orçamento do Estado de 2013, «serve apenas para desviar a atenção do essencial», acusou a Fectrans. Para a Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações, «o problema central das empresas é o crescente endividamento, pelo facto de terem substituído o Estado nas suas obrigações de construção de infraestruturas e de garantia do serviço social».
Numa nota que divulgou no sábado, reagindo a notícias na comunicação social, a Fectrans rejeita a ideia de que o transporte dos trabalhadores seria um privilégio que custa milhares de euros às empresas e assinala que, «enquanto se aponta esta medida para atingir sempre os mesmos, não se diz que os administradores têm direito a concessões de transportes vitalícias, desde que estejam um dia numa destas empresas», tal como é omitido que aos gestores e directores são atribuídos «carros, combustível e motorista, que são utilizados em serviço, nas viagens casa-trabalho e em fins privados».
O direito dos trabalhadores ao transporte, nas empresas em que laboram, «foi uma das contrapartidas oferecidas nos anúncios de recrutamento». Os que atacam este direito não demonstram qual o seu impacto nos custos das empresas, afirmando a Fectrans que «é uma “gotinha de água”, comparativamente com os milhares de milhões que são pagos em juros, que enriquecem a banca, e na especulação “swap” com as taxas de juro». Mas «sobre estes problemas não se conhece uma única medida».
A federação protesta também contra a confusão de diversas situações, recordando que o transporte de militares, agentes da Justiça, e outros «decorre de contratos entre as empresas e os ministérios e entidades, em que estes têm que pagar pela utilização dos serviços». Seria importante apurar se os governos que atacam os trabalhadores pagam efetivamente o que devem, sugere a Fectrans.
Cortes traduzidos
Menos trabalhadores e menos indemnizações compensatórias significará menos serviços e mais caros, avisou anteontem a Fectrans, comentando as medidas anunciadas na proposta de Orçamento do Estado.
Uma diminuição de 20 por cento, no número de trabalhadores, irá conduzir a mais uma redução dos serviços, porque já hoje há menos trabalhadores do que aqueles que seriam necessários para as empresas conseguirem assegurar a actual oferta. É por esta falta de pessoal que há recurso sistemático ao trabalho extraordinário.
A federação nota que, ao longo dos anos, as empresas de transportes têm vindo a reduzir o número de trabalhadores, atingindo essencialmente os sectores operacionais, mas tem aumentado o número de gestores e directores.
A redução das indemnizações compensatórias, para pagar as infraestruturas e o serviço social, «terá como consequência um maior endividamento das empresas, já que têm que ser estas a continuar a assegurar as obrigações que competem ao Estado». Por outro lado, esta redução, a concretizar-se, deixará as empresas perante duas opções: ou reduzir serviços, ou aumentar os custos para os utentes.