Cantemos então

Anabela Fino

Após o anúncio das novas medidas de austeridade feito por Passos Coelho e Vítor Gaspar – que provocou um autêntico TSU(nami) popular – eis que o Governo se desdobra em diligências para tentar fazer crer que afinal tudo não passou de um mal entendido, de um erro de casting, de um problema de comunicação.

Deixando de lado o essencial – ou seja, a efectiva e permanente redução de salários que representa o aumento da contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social em sete pontos percentuais, e a obscena redução da mesma taxa para os patrões – vêm agora Passos Coelho e sus muchachos garantir que a medida está a ser «calibrada», «retocada», «modelada», «balanceada» – só para citar alguns dos termos utilizados – de forma a torná-la digerível e enganar o pagante. Que os pobrezinhos ficam de fora; que haverá escalões; que mais isto e mais aquilo...

Entretanto, cabeças bem pensantes vão dando as suas achegas. É o caso do conselheiro de Estado Vítor Bento que, dizendo não se querer pronunciar sobre a TSU, vai debitando sentenças como: [a austeridade em Portugal] «tem sido mais suave do que noutros países»; «dizem que há alternativas à austeridade, mas eu não vi – confesso que não conheço»; «falta muita informação» [sobre as consequências das medidas de austeridade para 2013]; «não vejo alternativa»; e a reacção ao aumento da TSU «é emocional».

Temos pois que os portugueses, para além de rotulados de pacíficos (como quem diz, em linguagem popular, o boi é manso), piegas, subsídio-dependentes, preguiçosos e outras coisas que tais, têm agora esse epíteto de emocionais, termo usado em psicologia para designar estados de tonalidade afectiva intensa, breve, caracterizados por brusca ruptura das funções mentais e fisiológicas. Numa palavra, a coisa dá forte mas passa depressa, no sábio parecer de quem nunca ficou desempregado, nunca viu os filhos com fome, nunca perdeu a casa, nunca meteu a mão ao bolso e só encontrou cotão, nunca olhou em frente e não descortinou qualquer futuro.

No dia em que Portugal se despede de Luiz Goes, emérito médico de corpos e espíritos, só me ocorrer dizer a gente dessa o que ele tão bem soube cantar – Vale a pena acreditar que a canção de quem trabalha é um bem para se guardar.

 



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