As vozes e os números

Correia da Fonseca

Os canais portugueses especialmente dedicados a diversas formas de informação (SIC Notícias, RTP Informação, TVI24), qualquer deles acessível por cabo, incluem nas suas grelhas os chamados programas interactivos. Neles intervêm por via telefónica cidadãos telespectadores que nos estúdios são acolhidos não só pelos jornalistas de serviço mas também por convidados em princípio especialmente qualificados para darem resposta a dúvidas, queixas, testemunhos. E são sobretudo queixas, por vezes apenas sofridas mas quase sempre indignadas, o que as vozes dos telespectadores revelam. Os participantes por telefone são, como aliás bem se compreende, quase sempre de segmentos bem definidos: gente com disponibilidade para telefonar em horas de actividade laboral, o que significa serem reformados, mulheres domésticas, eventualmente estudantes, por vezes trabalhadores em férias. E desempregados, muitos desempregados, cada vez mais desempregados. Não corro significativo risco de erro se disser que a maioria deles denuncia melhor ou pior injustiças, quando não autênticas vilezas, que sente terem sido cometidas contra cada um deles, individualmente, ou contra a generalidade dos portugueses. Cometidas pelo Governo ou pelas diversas áreas da gestão pública que cumprem ordens do Governo. Entenda-se: esse tom dominante não exclui o aparecimento de excepções, de um ou outro apoiante de Passos Coelho e seus anexos, até de raras intervenções de travo criptofascista, aliás bem mais fascistas que crípticas. Mas não parece que haja margem para dúvidas: o protesto, melhor ou pior formulado, é a regra geral: protesto contra variadas formas de opressão social sentidas à escala de experiências individuais por cidadãos que recorrem à queixa e/ou à denúncia na TV. Quem telefona para denunciar ou protestar sabe que o seu telefonema não terá consequências para a resolução do «seu caso», mesmo que o caso ainda possa ter solução. Mas telefona porque não quer ficar calado, porque a denúncia pública é como que uma forma elementar e incipiente de justiça. E é claro que essa recusa da passividade total é já um bom princípio de vida.

Fica-se a gente a cismar

Entretanto, noutros momentos da nossa vida de telespectadores, talvez uma vez por semana, ou por quinzena, ou nem tanto, a TV informa-nos dos resultados das mais recentes sondagens às intenções de votos dos portugueses. A última ocasião em que isso aconteceu foi há poucos dias, e os resultados divulgados surgiram como cousa de muito nos maravilhar: o PSD continua a ser o partido que maior número de votos recolheria se acontecessem agora eleições legislativas! Inevitavelmente, fica-se a gente a cismar. Vamos a um café, entramos num transporte público, trocamos dois dedos de paleio numa fila de espera ou numa pausa no emprego, isto para não referir lugares de mais sensível clima social como um Centro de Saúde ou uma repartição de finanças, e lá estão as vozes: a densidade de recriminações ao Governo e às suas práticas é de cortar à faca. A estes sinais recolhidos directamente do quotidiano comum bem se podem adicionar as informações que melhor ou pior a própria TV nos vai dando: das empresas que diariamente encerram, das mãos-cheias de desempregados que todos os dias se acrescentam aos já existentes. Para mais, cavalheiros bem aparelhados vêm regularmente aos estúdios de televisão para nos garantirem que tudo pode ser ainda pior. Perante tudo isto, que aliás está longe de ser tudo, fica a gente a tentar perceber como é que a maioria sondada pode continuar a preferir o PSD e a sua política de traição a quase todos para sempre maior conforto de alguns. Inevitavelmente, emerge a suspeita porventura não de todo absurda de que talvez as contas não tenham sido bem feitas; de que talvez o «universo» consultado não tenha sido muito representativo do povo espoliado; de que também as sondagens, algumas sondagens, sejam usadas para nos desmobilizarem. Como se a fome, a doença, a angústia, o desespero, que alastram por esse País afora, pudessem ser desmobilizados assim. Isto é: como se as vítimas pudessem acreditar que o crime é apenas imaginação sua.



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