A bem da Nação

José Casanova

Há uma semana registou-se, aqui, o aumento em flecha, desde a ocupação de Portugal pela troika predadora, do número de pessoas apanhadas a «roubar para comer» nas lojas Belmiro, SS & Cia. - isto é: pessoas que vão buscar, onde a há, a comida que as reformas e os salários de miséria não lhes permitem adquirir.

Hoje fica um novo registo da mesma família: «aumentaram em 40% os pedidos de ajuda para pagamento de rendas de casa e das contas da água, da electricidade e do gás».

E para a semana há mais, porque os políticos das troikas são incansáveis – e os chefes actualmente de serviço à tarefa de afundar Portugal são dignos herdeiros dos seus maiores. Dito de outra forma: Passos e Portas em nada são inferiores aos seus antecessores Soares, Cavaco, Guterres, Barroso, Sócrates – e, tal como eles, souberam chamar a si uma notável plêiade de ministros, secretários de Estado, etc.

Veja-se o caso do ministro Macedo que, estoicamente entregue à tarefa de tratar da saúde aos portugueses, contratou um grupo de «peritos» para o ajudar a bem cumprir a referida tarefa.

Os «peritos», exímios cangalheiros, não se fizeram rogados e, depois de muito peritarem, concluíram que há serviços de urgência a mais no País. Vai daí peritaram que, em vez dos actuais 83 serviços de urgências, fiquem apenas 73. E, sempre dando provas de notável traquejo na arte da cangalha, avançaram com a lista das urgências a extinguir inevitavelmente: Oliveira de Azeméis, Valongo, Fafe, Serpa, Lagos, Loulé, Montemor-o-Novo, Montijo, Peniche e Tomar.

Mas não se ficaram por aqui os criativos «peritos»: entendendo que o que é necessário - mais do que isso: inevitável - é reduzir o número de doentes a recorrer às urgências, entenderam, também, que se impunha a igualmente inevitável aplicação de medidas visando esse patriótico objectivo. Pensaram, peritaram, e fez-se-lhes luz: a solução para «moderar as idas às urgências» é aumentar as taxas moderadoras.

Assim, os doentes morrem mais depressa... e os serviços de urgência podem passar de 73 para 63, 53, 43...

Assim reduzir-se-á, também, o número dos que têm que «roubar para comer» nos supermercados...

A bem da Nação, é claro.



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