Uma espécie de segredo
Digamos que a pouco e pouco, mas a um ritmo que progressivamente se veio acelerando, a televisão tem vindo a informar-nos de que foram erradas a adesão portuguesa ao euro e mesmo a entrada de Portugal nesta suposta «Europa unida» dominada pelo capitalismo sem quaisquer princípios mas com óbvios fins. Ainda nem se descortinava no horizonte a realização de um «Prós e Contras» como o da passada segunda-feira e já várias presenças na TV criticavam o que de facto são consequências da adesão portuguesa a uma máquina económica e política com a vocação estrutural de vampirizar os parceiros débeis e, eventualmente, no final cuspir-lhe as ossadas. É certo que mesmo no ponto a que chegámos ainda abundam os que aprovam a entrada do nosso País na chamada União Europeia e até se gabam de terem contribuído decisivamente para ela, não porém por daí terem advindo vantagens para os portugueses (a realidade actual já não consente um discurso desses) mas sim por garantir aquilo a que chamam democracia e que de facto é a ditadura dos grupos económicos e financeiros por intermédio dos seus efectivos servidores. Esperam, entretanto, que caia no esquecimento das gentes pauperizadas o conto de fadas onde se falava de solidariedade entre os Estados da União, os mais ricos e os mais pobres, os que produzem carros de luxo e os que, por força de leis, não podem impedir a sua importação por segmentos populacionais privilegiados. Por mais que esse e outros luxos contribuam para danificar as balanças comerciais e de pagamentos, com consequências para a famigerada dívida que serve de justificação para todas as brutalidades.
Imperativo de decência
Em suma, começa a tornar-se consensual, mesmo para os que quotidianamente se aprovisionam de saberes nos diversos canais da televisão portuguesa, que ao entrar na «Europa connosco» e ao entrar no Clube da Moeda Única o nosso País aceitou envergar uma camisa-de-onze-varas que agora se multiplica em torturas para o povão que a paga. Convém recordar, já agora e de passagem, que segundo o nosso actual Presidente da República, então a exercer as suas funções de primeiro-ministro, a nossa entrada no euro colocou-nos no «pelotão da frente», imagem de radicação desportiva que o senhor professor usou com indisfarçado orgulho. Estas coisas tendem a ser esquecidas, pelo que será saudável lembrá-las agora que o «pelotão» se partiu pelo menos em dois e que Portugal está no segundo e porventura em risco de ser apanhado por algum «carro-vassoura», o que pode sair caro. Digamos de outro modo e para encurtar razões que a realidade se impôs à impostura. Mas não fiquemos por aqui. É que nesta altura em que tombaram, apodrecidos, os mantos de uma fantasia que de facto não era diáfana, emerge como obrigação moral, como imperativo de decência informativa, lembrar que desde sempre os comunistas e o seu Partido manifestaram a sua oposição a essa aventura europeia que nos atiraria, desarmados, para pasto da gula de parceiros económica e financeiramente poderosos, de negocismos ávidos, do inescrúpulo dos usurários que usam o pseudónimo elegante de «mercados». E acontece que a televisão que tão obviamente contribuiu então para enganar um povo inteiro, juntando esse a outros crimes que desde sempre pesavam no seu cadastro, se vem esquivando ao tal dever fundamental: o de vir lembrar aos portugueses que desde sempre os comunistas disseram «não!» ao embarque do nosso País num novo Mar Tenebroso nos confins do qual não haveria nenhuma Índia da Abundância mas sim destruição, miséria e fomes. Esse dado, fundamentalíssimo para que os cidadãos distingam quem lhes mentiu de quem os preveniu, omite-o a televisão como se tratasse de uma espécie de segredo cuja revelação pública poderia ter consequências. Talvez consequências indesejadas por esta televisão que nos maneja e que por sua vez é manejada. Sempre para frustração dos que um dia se decidiram a lançar avisos à navegação telespectadora, avisos talvez só recolhidos pelos que já não precisavam deles.