Prever o óbvio...
O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, parece-se cada vez mais com aqueles treinadores de bancada que só fazem «previsões depois do jogo». Na semana passada, após uma reunião com os parceiros sociais, anunciou o que há muito se sabe: o agravamento da taxa (oficial) de desemprego para os 15,5 por cento este ano e para 16 por cento no próximo ano.
A «novidade» parece estar no facto de o Governo reconhecer agora – menos de um mês depois de ter enviado para a Comissão Europeia uma perspectiva «optimista» de uma taxa de desemprego de 14,5 por cento este ano e de 14,1 para 2013 – que a situação do mercado de trabalho se degradou e vai continuar a degradar-se.
O que já não constitui novidade é o facto de Gaspar, debitados os números, se ter remetido ao silêncio, ou seja, não apresentou uma única medida para combater o desemprego. O caricato da situação é tal que João Vieira Lopes, da Confederação do Comércio, considerou a reunião de dia 30 uma inutilidade, dizendo mesmo não perceber o que foi fazer o ministro das Finanças a uma reunião em que o Governo nada tinha a apresentar.
Já o patrão da Confederação da Indústria, António Saraiva, por ventura mais informado ou mais expedito em levar a água ao seu moinho, aproveitou a ocasião para assacar responsabilidades pela subida do desemprego ao Governo e à elevada carga fiscal, garantindo que «só não compreende este fenómeno quem está longe da realidade».
Palavras não eram ditas e logo apareceram notícias dando conta de que o Governo está a preparar uma descida da taxa social única (TSU) suportada pelas empresas que empreguem trabalhadores jovens a ganhar o salário mínimo. O objectivo, diz-se, seria «combater o desemprego jovem» que atingiu novo máximo, de 36,3 por cento.
… para liquidar tudo
Por coincidência, ou talvez não, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou entretanto os cálculos finais sobre a esperança de média de vida em 2011, confirmando que a mesma aos 65 anos foi de 18,62 anos (os portugueses vivem em média até aos 83,62 anos). O que poderia ser uma boa notícia esconde um enorme senão: quem se reformar este ano terá uma penalização na pensão de 3,92 por cento, devido ao chamado «factor de sustentabilidade» da Segurança Social, que desde há cinco anos vem implicando uma redução no valor das novas pensões.
Curiosa preocupação esta com a sustentabilidade da Segurança Social, que é justamente a mesma que se pretende descapitalizar com o corte da TSU suportada pelas empresas. Para compensar os cortes nas pensões, os trabalhadores têm duas hipóteses: trabalhar mais tempo para descontar mais ou... fazer descontos para regimes complementares. As seguradoras acham o máximo.
A UGT regista
Face a tudo isto, a UGT, que há uns tempos largos fez um ultimato ao Governo dando-lhe «uma semana» para apresentar medidas concretas para promover o emprego, regista agora que o Executivo continua a «assobiar para o lado», facto que não impede João Proença de continuar a sentir-se lisonjeado sempre que alguma entidade – como fez ainda há dias a Comissão Europeia – sublinha a importância do acordo tripartido (Governo, patrões e UGT) que permitiu a reforma do Código do Trabalho que permite despedir mais e mais barato.