Nos 58 anos do assassinato de Catarina Eufémia

Exemplo presente nos combates que travamos

Gustavo Carneiro – texto
Inês Seixas – fotos

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Há pessoas que não morrem nunca e Catarina Eufémia é uma delas. Cinquenta e oito anos depois do seu assassinato, centenas de militantes e simpatizantes do Partido participaram na homenagem promovida pelo PCP em Baleizão, com a mesma determinação com que travam todos os dias a luta contra a exploração e a injustiça, pela democracia avançada e o socialismo.

Porque os mártires nunca morrem enquanto houver quem continue a luta pela qual deram as suas vidas.

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«Os mortos não os deixamos para trás, abandonados. Fazemos deles bandeiras, guias e mestres, soldados dos combates que travamos.» Este poema de Joaquim Namorado, celebrizado numa das Heróicas de Fernando Lopes-Graça, foi citado no domingo, na Praça Catarina Eufémia, em Baleizão, pelo Secretário-geral do PCP em mais uma homenagem a Catarina Eufémia – na qual participaram largas centenas de pessoas, na maioria militantes comunistas, vindas de todo o Alentejo e não só. É assim que os comunistas portugueses tratam os seus mártires: não permitindo que os seus nomes sejam esquecidos, honrando sempre a sua memória, prosseguindo com coragem e tenacidade a luta pela qual tombaram.

No comício realizado na praça que tem o nome de Catarina Eufémia (e que teve que ser encurtado pois a chuva teimou em cair de forma diluviana), Jerónimo de Sousa evocou o seu exemplo, garantindo que ele «permanece como referência de todos os dias na vida e na actividade do nosso grande colectivo partidário». Lembrando o dia 19 de Maio de 1954 – «aquele dia em que Catarina – mulher, mãe, militante comunista – enfrentando corajosamente a força bruta fascista, tombou às balas assassinas e regou a terra com o seu sangue mártir» – o Secretário-geral do Partido extraiu desses tempos e dessas lutas ensinamentos para o presente: «hoje como ontem, a luta de massas, a sua intensificação e ampliação, constitui o instrumento essencial da acção dos trabalhadores na sua resposta à exploração capitalista; e hoje como ontem o PCP tem um papel determinante a desempenhar na organização e direcção dessa luta».

Rejeitando qualquer «saudosismo» ou «aproveitamento político» da figura de Catarina Eufémia, Jerónimo de Sousa garantiu que é a «pensar nos dias de hoje, na situação dramática criada pela política de direita aos trabalhadores, ao povo e ao País e na necessidade de derrotar essa política e de a substituir por uma política patriótica e de esquerda, que trazemos à memória esses acontecimentos ocorridos há quase sessenta anos». O Secretário-geral do Partido citou, em seguida, o que Álvaro Cunhal dissera naquele mesmo local em Maio de 1974, poucos dias depois do 25 de Abril: «Catarina tornou-se uma lendária heroína popular, orgulho do glorioso proletariado rural alentejano, orgulho de todos os trabalhadores portugueses, orgulho do Partido», para em seguida acrescentar que é precisamente «com esse orgulho comunista que hoje prosseguimos a luta travada por sucessivas gerações de comunistas, das quais nos orgulhamos de ser fiéis herdeiros».

 

O futuro tem nome de Catarina

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Para Jerónimo de Sousa, o sacrifício de Catarina Eufémia não foi em vão, pois o seu «exemplo de luta ficou gravado na memória do proletariado rural da zona do latifúndio e foi bandeira das muitas lutas que se sucederam nos anos seguintes e que viriam a desaguar na maré alta da luta do proletariado rural do Alentejo e do Ribatejo». Oito anos depois da sua morte, recordou, «em Maio de 1962, aqui em Baleizão e em toda a zona do latifúndio, os assalariados rurais alcançaram a sua mais significativa vitória de sempre: a conquista do horário das oito horas, pondo assim termo a essa forma de escravatura que era o trabalho de sol a sol e assim infligindo uma pesada derrota ao fascismo».

Nesta luta, na qual o Partido teve o papel decisivo, «mais de duzentos mil assalariados rurais, fortalecidos por uma determinação inabalável, dando provas de uma coragem indómita, unidos como os dedos da mão e conscientes de que só com a luta conseguiriam alcançar os seus objectivos, fizeram, nesse mês de Maio, dos campos do Alentejo e do Ribatejo o cenário da mais importante e significativa luta alguma vez levada a cabo no nosso País no tempo do fascismo». «Por isso venceram e por isso, naquela situação concreta, derrotaram o odioso regime fascista – assim lançando à terra as sementes das quais viria a brotar, anos mais tarde, aquela que foi a mais bela de todas as conquistas da Revolução de Abril: a Reforma Agrária.»

Também hoje, destacou o Secretário-geral do PCP, a necessidade da luta surge como «questão crucial de resposta dos trabalhadores e do povo face à política de direita e ao seu pacto de agressão, que transporta um brutal projecto de exploração do trabalho e do nosso povo». Um projecto de «violenta exploração do trabalho» que está bem patente na Lei de alteração ao Código do Trabalho (aprovada pela maioria PSD/CDS, com o apoio do PS) e que é de uma «violência desmedida contra o mundo do trabalho e os seus mais elementares e legítimos interesses e direitos».

A chuva que teimava em cair violentamente não deixou Jerónimo de Sousa referir-se a outros aspectos igualmente gravosos da política do Governo e da troika, mas a mensagem principal estava dada – e fora compreendida pelas centenas de comunistas presentes que se incorporaram no desfile desde o cemitério de Baleizão até à praça Catarina Eufémia: lutando, será possível derrotar o pacto de agressão e a política de direita e fazer o País retomar os caminhos abertos pela Revolução de Abril, que tanto deve a Catarina Eufémia e ao proletariado agrícola do Alentejo. Também as vitórias futuras terão a sua marca indelével.


Retrato de Catarina Eufémia

Da medonha saudade da medusa

que medeia entre nós e o passado

dessa palavra polvo da recusa

de um povo desgraçado.

 

Da palavra saudade a mais bonita

a mais prenha de pranto a mais novelo

da língua portuguesa fiz a fita encarnada

que ponho no cabelo.

 

Trança de trigo roxo

Catarina morrendo alpendurada

do alto de uma foice.

Soror Saudade Viva assassinada

pelas balas do sol

na culatra da noite.

 

Meu amor. Minha espiga. Meu herói

Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher

de corpo inteiro como ninguém foi

de pedra e alma como ninguém quer.

 

José Carlos Ary dos Santos

 

Cantar Alentejano

Chamava-se Catarina

O Alentejo a viu nascer

Serranas viram-na em vida

Baleizão a viu morrer

 

Ceifeiras na manhã fria

Flores na campa lhe vão pôr

Ficou vermelha a campina

Do sangue que então brotou

 

Acalma o furor campina

Que o teu pranto não findou

Quem viu morrer Catarina

Não perdoa a quem matou

 

Aquela pomba tão branca

Todos a querem p’ra si

Ó Alentejo queimado

Ninguém se lembra de ti

 

Aquela andorinha negra

Bate as asas p’ra voar

Ó Alentejo esquecido

Inda um dia hás-de cantar

 

Vicente Campinas (musicado por José Afonso no disco Cantigas do Maio)

 

Ao retrato de Catarina

Esses teus olhos enxutos

Num fundo cavo de olheiras

Esses lábios resolutos

Boca de falas inteiras

Essa fronte aonde os brutos

Vararam balas certeiras

Contam certa a tua vida

Vida de lida e de luta

De fome tão sem medida

Que os campos todos enluta

 

Ceifou-te ceifeira a morte

Antes da própria sazão

Quando o teu altivo porte

Fazia sombra ao patrão

Sua lei ditou-te a sorte

Negra bala foi teu pão

E o pão por nós semeado

Com nosso suor colhido

Pelo pobre é amassado

Pelo rico só repartido

 

Tanta seara continhas

Visível já nas entranhas

Em teu ventre a vida tinhas

Na morte certeza tenhas

Malditas ervas daninhas

Hão-de ter mondas tamanhas

Searas de grã estatura

De raiva surda e vingança

Crescerão da tua esperança

Ceifada sem ser madura

 

Teus destinos Catarina

Não findaram sem renovo

Tiveram morte assassina

Hão-de ter vida de novo

Na semente que germina

Dos destinos do teu povo

E na noite negra negra

Do teu cabelo revolto

nasce a Manhã do teu rosto

No futuro de olhos posto

 

Carlos Aboim Inglez

 



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