Os «Tabus»

Nuno Gomes dos Santos

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O nome, «Tabus», poderia ser imediatamente reconhecido como uma artimanha política, coisa de esconder, mordaça de palavras ou de informações que a seu tempo virão, por enquanto, senhoras e senhores, caros jornalistas, a questão é tabu e pronto. Porém, não é disso que se trata. E é por de mais evidente que a palavra, aqui, não teria importância nenhuma, não fora ser nome de grupo.

Na época dizia-se conjunto. Uma meia dúzia de putos, eu incluído, ousou fazer música, quer-se dizer, tentou harmonizar a contento e vocalizar a preceito umas músicas de que a malta gostava, e eram elas as dos Beatles, do Donovan, dos Bee Gees, do Adamo, dos Bech Boys, e por aí fora, que foi para isso que a colectividade investiu, tomem lá uma aparelhagem, uma organeta medíocre, um baixo de bradar aos céus, uma mesa de mistura onde cabiam todos os sons e toca a andar.

Os sócios, logo à primeira, gostaram e, por isso, o tal conjunto não era pertença dos que o formavam, mas do, então, Ginásio Clube de Caselas, sede (convém que se diga sede...) mater da sala de ensaios (salvo seja!), e anfiteatro de actuações memoráveis, se nos atendermos ao «enormíssimo êxito» que a malta da casa (a nossa malta!, diziam) ia conseguindo, animando bailes e depois respirando fundo, seriam não sei quantas da manhã, num cacau reconfortante na Ribeira, na euforia adolescente de quem tinha conseguido atingir um objectivo glorioso.

Putos, todos. Embalados nas cantigas da moda, tentando reproduzir a contento o que ia nos ouvidos do público destinatário das músicas de bailar e chorar por mais.

Encontrámo-nos, (quase) todos, num jantar comemorativo do 1.º de Maio, em 2012, num restaurante de referência, em Almada. Foi um ver se te avias de memórias. De olha lá, há quanto tempo, que é feito. Porém, houve uma recordação, uma etapa do conjunto que nos fez desabrochar sorrisos cúmplices e piscares de olhos que não necessitam tradução. Foi o caso de nós, com a ingenuidade da idade que tínhamos, cantando Beatles, Bee Gees, Beach Boys, Animals e etc., termos inventado uma tinta estapafúrdia para acrescentar à cal que conseguíramos (tinta para sapatos, café, mistelas de colorau, etc.) e pintar, nas paredes da colectividade, as palavras do MDP/CDE Liberdade, Democracia, Amnistia. Foram aquelas eleições de que já sabemos. Mas, muito tempo depois, apesar dos esforços de apagar as frases que assumimos e ali implantámos, sempre que chovia apareciam, limpas e desafiadoras, as palavras que custosamente escrevemos e de cuja autoria fomos acusados, por esta vez escapando «dos olhos e ouvidos do imperador» devido às artes mágicas que tem um bairro e à incapacidade de sobrevivência em comunidade de delatores que, no minuto seguinte (ao 25 de Abril) não o eram, t'arrenego, olha lá se eu alguma vez...

A História tem mais que fazer do que registar este nomes, porque há outros com peso maior e papel de primeira figura, irrecusavelmente merecida, no desenrolar dos eventos que desaguaram no 25 de Abril de 1974. Mas eu, que penso que nunca será demais nomear quem, por um pequeno gesto ou por uma dedicação, na altura impensável e depois desvendada, que os tempos eram esses, de escondimento e cumplicidade aflita, falo do Joca Coradinho, o das teclas do conjunto, que entrou por uma janela da cave onde tudo estava preparado para as pinchagens no frontispício da colectividade para dar pinceladas nas paredes do futuro e dos outros, os tais do conjunto, que agora se reencontram e aparecem, às claras, desvendando-se (falo do João Viera, do Mané Lança, do Carlos Zé).

Apenas um exemplo, nem grave nem exemplar. «Tabus»? Se calhar o conjunto teria tido outro nome. Se calhar, juntam-se, esses todos do conjunto, um dia destes, e vão arremendar cantigas porque lhes dá gozo. Não importa. Nada melhor do que o abraço do reencontro. Não imaginam como é gratificante um abraço que, por muitas razões, foi meio escondido, embora fosse, sempre, abraço.

É certo: nesse dia do teimoso sonho que sonhamos, os «putos» dos «Tabus» olharam-se e olharam em redor. Estavam, como há quarenta anos queriam estar, no lugar de serem quem sonharam ser.



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