As mãos sujas
O título que encima estas duas colunas é, como se sabe, de Jean-Paul Sartre. Porém, se confesso o abuso de o ter pilhado no convencimento de que ficaria aqui bem e que, de resto, o autor de «O Existencialismo é um Humanismo» não me levaria a mal por tê-lo feito, quero acrescentar ainda, para minha defesa, que fui estimulado a cometer o desacato, e também que esse estímulo veio de uma personalidade seguramente virtuosa, nada menos que D. Gianfranco Ravasi, cardeal por vontade divina e por decisão papal, para mais presidente do Pontifício Conselho para a Cultura no Vaticano, presente no santuário de Fátima no passado dia 13. Graças à abundante cobertura que a televisão portuguesa fez das cerimónias religiosas havidas na Cova da Iria, como aliás é sua já tradicional prática desde remotos tempos, pude conhecer, entre outros aspectos e dados verdadeiramente impressionantes, parte da alocução do cardeal Ravasi, quer por visionamento directo quer pelos atentos trabalhos de reportagem que as celebrações mereceram. E entre muitas outras frases decerto excelentes que D. Gianfranco proferiu, pareceu-me particularmente relevante aquela em que exortou os católicos a «sujarem as mãos» para ajudarem os «miseráveis». Não porque reflicta em grau muito intenso o espírito cristão no seu estado mais puro: não consta que Jesus alguma vez tenha feito distinção entre umas e outras mãos, sobretudo se algumas delas correm o risco de se sujarem na ajuda a «miseráveis», isto é, a gente muito pobre. Nem parece sequer que o Mestre alguma vez tenha aludido à sujidade que desgraçadamente muitas vezes acompanha a miséria. Mas parece claro que as palavras do senhor cardeal quiseram ser um estímulo para a prática da caridade cristã, mesmo se tão bonito gesto implicar alguns incómodos e riscos de que a alusão à sujidade foi mera metáfora. Afinal, compreende-se que não é sem consequências culturais, inclusivamente ao nível das liberdades semânticas, que se preside a um Pontifício Conselho para a Cultura.
Mãos, metáforas e caminhos
Infelizmente, porém, é de admitir que desta vez se tratou de uma metáfora infeliz: acontece a qualquer, bem se sabe, que isto por vezes há coisas do diabo, como diz o povo. Aquilo da sujidade dos miseráveis, tanta e tal que até pode sujar as mãos que em seu socorro se estendam, até me fez lembrar a provocação um dia cometida por um menoríssimo escritor português que definiu os pobres daquele tempo, que era o tempo do fascismo português, como «gente que cheira mal». Escusado seria dizer que não suspeito da mais ligeira afinidade ideológica entre o escritor nazifascista e o senhor cardeal Ravasi, cujo espírito necessariamente cristianíssimo não pode ser posto em dúvida a partir de uma metáfora usada na melhor das intenções. Não obstante, é forçoso reconhecer que por vezes uns certos tiques de linguagem ou outros, aparentados com um certo espírito de classe capaz de se infiltrar nas mais cristãs das almas, nas almas mais fraternas, pode resultar na involuntária denúncia de qualquer coisa que nunca pode ser denunciada pela razão definitiva que não pode ter lugar no pensamento cristão. Os cristãos sabem que os pobres nunca podem ser designados por miseráveis porque essa fórmula revelaria uma secreta sobranceria incompatível com a fraternidade cristã, tal como sabem que mesmo a pobreza extrema não suja as mãos que a toquem, sujando, isso sim, as mãos dos que de longe a provocaram mesmo não a tocando directamente. Esta sabedoria é, aliás, comum aos comunistas, de quem os cristãos verdadeiros estão sempre muito mais perto do que dos fariseus de mãos sujas não pelo contacto com a pobreza mas sim pela prática das infâmias que geram a miséria e a multiplicam. Tudo isto e decerto muito mais sabe D. Gianfranco Ravasi que terá regressado a Roma com a alma reconfortada pela visão dos muitos milhares que afluíram mais uma vez a Fátima. Alguns, segundo um comentador, para pedirem ao Céu o milagre de um emprego. Milagre cuja consecução também é perseguida pelos comunistas, mas por outros caminhos. É que os itinerários das convergências, como ao que consta os do Céu, são muitos e quase sempre demasiado esquecidos.