A prova dos quatro
Na TVI 24 há um programa de debate político que por razões não demasiado evidentes tem o título de «A Prova dos Nove». Na RTP1, o «Prós e Contras» da passada segunda-feira, com as intervenções mais uma vez limitadas aos quatro convidados instalados no palco do Teatro Armando Cortês, bem podia ter usado o subtítulo de «A Prova dos Quatro». É que, embora o tema do programa fosse desta vez «A vida dos portugueses», não foi ouvido nenhum depoimento vindo da plateia, onde provavelmente estariam, onde na verdade deveriam estar, vozes em condições de prestar testemunho acerca do que está a acontecer aos cidadãos do nosso País. Assim, tudo ficou confiado aos quatro convidados: António dfOrey Capucho, ex-presidente da Câmara de Cascais; Rui Chancerel de Machete, durante mais de vinte anos presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento; António Avelãs Nunes, professor catedrático jubilado; Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do Partido Comunista Português. Este último em estreia absoluta no «Prós e Contras», e não apenas muito saudado por todos os outros intervenientes mas também tendo sido o único a receber ovações por parte do público em dois momentos do programa. Essas duas erupções de aplausos aconteceram quando já se tornara evidente, digamos que provada, a escassa limpidez de argumentos avançados por António Capucho e Rui Machete, e o público terá encontrado nas palavras de Jerónimo de Sousa a lufada de verdade que noutras ocasiões faltara. Por contraste, estava provado de que lado estavam a lucidez e a honestidade intelectual, e as palmas explodiram.
Nos terrenos da impostura
Em dois pontos se terão especialmente evidenciado as debilidades das posições sustentadas por Capucho e Machete. Falou-se da necessidade urgente de financiamento às actividades produtivas nacionais carentes de capital. Essa necessidade reconhecida por todos, cruzando-se com a averiguada relutância da banca privada em cumprir a sua função de apoio à economia (porque a tentação dos jogos financeiros continua forte, porque é atraente receber do BCE financiamentos a 1% para depois os aplicar talvez a 13% em investimentos financeiros), aponta claramente para a nacionalização da banca a fim de que ela seja posta, enfim, ao serviço da comunidade nacional. Logo Capucho e Machete evocaram a nacionalização de 75 e reeditaram as já crónicas falsificações da direita quanto a essa decisão que de facto evitou desastres que se preparavam. De caminho, um e/ou outro aproveitaram o ensejo para repetirem a argumentação impostora segundo a qual a derrota da URSS na guerra fria terá provado a condenação ao desastre das economias geridas pelo Estado nos sectores da grande produção e do grande financiamento. Além de falsos, eram argumentos que tresandavam a preconceitos ideológicos, isto é, à ideologia que a burguesia segrega a partir dos seus próprios interesses. Isso não os impediu, porém, de acusarem Jerónimo de Sousa e Avelãs Nunes de recorrerem a argumentos «ideológicos» e de recusarem a suposta força dos factos. Ainda no aproveitamento da alusão à URSS, Machete iniciou a reedição da acusação habitual dos «crimes do comunismo», só se tendo deixado disso perante a reacção enérgica de Avelãs Nunes. Estavam, pois, os que de facto ali representavam a direita no poder acampados, digamos assim, nos terrenos que mais lhes agradam: o preconceito contra o papel do Estado na posse e gestão dos factores económicos nacionais e o velho ódio anti-soviético, fruto já serôdio de um susto antigo. Amarrados a esses dois tiques crónicos, deixaram que ficasse provado na prática o seu desinteresse por «a vida dos portugueses», tema do programa. Mas era bem da vida dos portugueses que se tratava quando Jerónimo de Sousa, indignado, rejeitou a velha aldrabice, ali repetida por Machete, de que todos (e ele reafirmou em interrupção: todos!) haviam vivido «acima das suas possibilidades» e todos são por isso responsáveis pela situação actual do País. Era a prova pública de quem de facto se preocupa com a vida deste povo que é, de facto, o próprio País. Era também a vergonha pública de quem insiste em estafadas mentiras.