O terceiro sector e a economia solidária
«A Igreja, sem ter soluções concretas para o conflito entre o capital e o trabalho,
apela ao entendimento entre os dois factores de produção, no respeito da justiça e da dignidade das pessoas, sob a arbitragem do Estado… Toda esta problemática adquire novas dimensões com a globalização» (Enciclopédia Católica Popular, Manuel Franco Falcão, Bispo Emérito de Beja).
«Os gestores católicos vão ensinar os bispos a gerir as suas dioceses… Hoje, as dioceses têm áreas incomensuráveis que exigem dos nossos bispos uma enorme capacidade de gestão e decisões diárias difíceis» (José Roquette, fundador da ACEGE e quadro do Opus Dei; DN 16.6.08).
«Os católicos fundaram uma organização de massas fortemente centralizada, a Aliança Popular da Alemanha Católica, que conta com 750 000 membros. O seu objectivo consiste em defender o regime “cristão” (melhor, capitalista) e combater as ideias “subversivas” (isto é, socialistas)... A Direcção está organizada à maneira de uma empresa. Edita-se uma série de brochuras sobre todos os problemas. Distribui-se todos os anos uns 5000 resumos de conferências. Uma secção especial ocupa-se de propaganda através do Cinema. Um gabinete fornece gratuitamente toda a espécie de informações: deu mais de 18 000 em 1912» (V.I.Lenine, “Liberais e clericais”, Maio de 1913).
Não só em Portugal mas no resto do mundo, nomeadamente na Europa com governos incondicionalmente capitalistas, os desempregados (o cinicamente chamado «exército de reserva») não cessam de aumentar. Simultaneamente, os poderes democráticos estabelecidos radicam-se à direita e as hierarquias religiosas mostram a sua verdadeira cara, fundamentalista e sempre comprometida com o grande capital. Lemos os noticiários e irresistivelmente recordamos os acontecimentos de entre as duas guerras mundiais, quando o fascismo era o mais sábio e se movimentava entre o terror e a demagogia. Já então, mudar o sentido às palavras representava o modo mais fácil e eficiente de enganar o povo.
O Vaticano e os Jesuítas bem sabem que isto é verdade. Foram eles o pai e a mãe da estratégia dos enganos. Revêem-se na União Europeia. Jacques Delors, figura de proa da Companhia de Jesus e ex-presidente da Comunidade Europeia, usou a expressão terceiro sector pela primeira vez, em 1979. Significava isto que passava a ser oficialmente reconhecido que ao anterior esquema de público e privado, o primeiro ligado ao conceito de Estado social, o segundo à iniciativa privada e lucrativa, se vinha juntar um terceiro sector com as seguintes características obrigatórias: 1.º: ser entidade da sociedade civil com objectivos públicos e não lucrativos; 2.º: ter autonomia em relação ao poder central; 3.º: dispor de gestão própria; 4.º: funcionar, pelo menos em parte, com trabalhadores voluntários não remunerados.
Por mérito próprio, ficariam a pertencer em Portugal a esta nova área sócio-económica e política, as IPSS (na sua esmagadora maioria controladas pela Igreja e em grande parte dirigidas pela Igreja), as ONG confessionais e não confessionais, as Misericórdias, as fundações filantrópicas da sociedade civil, as sociedades de investimento ou «private equity» (mais de 9000 grandes grupos de empresas legalizadas em todo o mundo) que cobram pesadas comissões aos seus membros e reinvestem essas receitas nos mercados financeiros, etc. Trata-se de uma verdadeira super-estrutura capitalista mundial organizada em redes regionais, nacionais e internacionais cuja missão principal é «apoiar a concentração de capital e do conhecimento». A direcção destas redes é vertical e fortemente personalizada. Neste caso, porém, os iluminatti tomam o nome de «business angels» (anjos de negócios) para recordarem, a cada instante, que o mundo do dinheiro tem uma ética cristã de inspiração divina.
Segundo dados publicados em 2007 pela imprensa da especialidade, haveria em Portugal, no pleno exercício das suas funções, cerca de 250 «business angels» que procuravam estabelecer no país as regras de jogo de que gozam os 4000 «anjos» franceses, os 50 mil ingleses ou 500 mil norte-americanos!...
Estas super-empresas, em todo o lado onde se instalem, exigem do Estado um financiamento anual e mais subsídios e benefícios fiscais. Em nome da sua natureza filantrópica. No ano a que acima nos referimos (2007) já o Governo se propunha isentar as «private equity» dos impostos a pagar pelas mais-valias!
Continua...