Presidente derrotado
Foi a primeira vez na história da França que um presidente candidato perdeu a primeira volta para o seu principal adversário. François Hollande venceu com 28,63 por cento dos votos, contra 27,08 recolhidos pelo ainda chefe de Estado, Nicolas Sarkozy.
Descontentamento dos franceses exprime-se nas urnas
Num sufrágio com elevada participação (a taxa de abstenção foi de apenas 19,84%), o eleitorado de França mobilizou-se essencialmente contra o presidente em funções. Se é certo que Sarkozy parte para a segunda volta com uma diferença de apenas um ponto e meio percentual em relação a Hollande, o facto é que, em relação ao resultado obtido há cinco anos (31,2%), a sua candidatura perdeu quatro pontos percentuais e as perspectivas de recuperação são reduzidas ou mesmo nulas.
As sondagens dão uma clara vantagem a Hollande na segunda volta do escrutínio, em que deverá captar a totalidade dos votos da «esquerda», bem como cerca de 60 por cento dos eleitores que, rejeitando claramente Sarkozy, se deixaram levar pelo discurso nacionalista e xenófobo de Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita.
Le Pen terá assim beneficiado do desgaste político de Sarkozy e da falta de carisma e clareza de Hollande, concentrando muitos votos de protesto, que lhe permitiram alcançar o resultado histórico de 18,01 por cento.
Em quarto lugar surgiu Jean-Luc Mélenchon, com 11,13 por cento, o candidato da frente de esquerda (Front de Gauche), em que se inclui a sua formação, o Partido de Esquerda, e o Partido Comunista francês.
Trotskista em Maio de 1968, Mélenchon aderiu ao Partido Socialista em 1977. Foi eleito senador pelo departamento de Essonne, a Sul de Paris, em 1986. Em 2000 tornou-se ministro no governo do socialista de Lionel Jospin, ficando com a pasta do ensino profissional.
Em 2005, Mélenchon opôs-se ao projecto de «constituição europeia», participando na estrondosa vitória do «Não». A ruptura com o PS não tardou e, em 2008, fundou o Partido de Esquerda, sendo eleito deputado em 2009. Em Junho do ano passado recolheu 60 por cento dos votos nas eleições para candidato presidencial do seu partido e do PCF.
Ao longo desta campanha, num discurso de colorido radical, apelou a uma «insurreição cívica», a uma «revolução cidadã» e considerou a classe operária «a verdadeira classe patriótica da França». Chegou a juntar mais de 100 mil pessoas em comícios ao ar livre, onde se cantou a «Internacional» e a «Marselhesa». Cumprida a missão, declarou de imediato o seu apoio a François Hollande para que toda a «esquerda unida» possa derrotar Sarkozy na segunda volta.
A mesma decisão foi tomada por Eva Joly, a candidata dos Verdes, que se classificou em sexto lugar, com 2,31 por cento dos votos, atrás do centrista François Bayrou, que alcançou 9,13 por cento, não tendo revelado para já qual dos dois candidatos irá apoiar.
Segundo um inquérito do Ifop (Instituto Francês de Opinião Pública), divulgado no domingo, após o escrutínio, François Hollande vencerá a segunda volta, em 6 de Maio, com 54,5 por cento, previsão partilhada pela empresa de sondagens Ipsos que lhe garante 54 por cento.