Testemunho de acusação

Correia da Fonseca

José Gomes Ferreira não é apenas nome de um poeta grande que alguns parecem querer empurrar agora para a vala comum do esquecimento: é também o nome de um jornalista especializado em Economia e Finanças, insuspeito de vínculos ideológicos que o liguem à Esquerda consequente, isto é, a que projecta um modelo de sociedade que sucederá ao hipercapitalismo ainda dominante e que por esse projecto se bate «com as armas que temos na mão», para usar aqui as palavras do hino da Intersindical. A distância do jornalista José Gomes Ferreira em relação a esse suposto «extremismo» é aliás confirmada pelo facto de ser subdirector de Informação da SIC, sendo óbvio que o dr. Balsemão nunca permitiria sob o seu patronato e em em lugar de tanto destaque alguém em quem não reconhecesse «activo repúdio pelo comunismo e por todas as ideias subversivas», como se diria recorrendo-se a uma velha fórmula. Temos, pois, que José Gomes Ferreira, além da competência profissional de que ao longo do tempo vem dando sinais, é também insuspeito de hostilidade sistemática e de princípio para com o capitalismo para o qual trabalha, como de resto acontece a muita gente excelente nos mais variados domínios de actividade. Por isso se revestiu de um inesperado travo de algum sensacionalismo a entrevista que José Gomes Ferreira, trocando a sua habitual função de entrevistador pela qualidade de entrevistado, na passada segunda-feira concedeu a Júlia Pinheiro no programa «Querida Júlia», espaço aliás pouco ou nada vocacionado para a abordagem de questões muito sérias e de carácter geral. Tratou-se, pois, de uma surpresa cujo efeito muito se ampliou pelo carácter também surpreendente das palavras de Gomes Ferreira: foi, de facto, um testemunho insuspeito acerca do crime que vem sendo cometido contra o País, isto é, contra o povo português, pelo actual Governo e pelos que o antecederam; testemunho firme e sempre explicado, em muitos momentos testemunho de acusação. De tal modo que não seria de espantar que, sendo as coisas como bem se sabe que são, dele decorressem consequências desagradáveis para o exercício profissional de José Gomes Ferreira.

 

Dois pontos entre outros mais

 

Não surpreenderá que nestas duas colunas não sejam registados todos os momentos e todos os temas que foram importantes nas respostas que José Gomes Ferreira deu às questões que lhe foram postas por uma Júlia Pinheiro aparentemente espantada com a extensão da desgraça que já assola o País e que ameaça agravar-se sem que se saiba ao certo até onde e até quando. Assim, quer por força da limitação deste espaço de escrita quer pela limitada capacidade de quem nele escreve, refira-se apenas dois dos pontos esclarecidos por José Gomes Ferreira. Um deles foi o escândalo das chamadas PPP, parcerias público-privadas, e sobretudo do clausulado contratual que entrega proventos fabulosos e garantias que se diriam impensáveis a importantes grupos financeiros. O outro desses dois pontos foi o da intensamente anunciada falência da Segurança Social, propalada como inevitável e mesmo iminente, o que Gomes Ferreira sustenta ser falso e visar um objectivo grosseiramente mercantil: manipular a opinião pública de modo a que parte dela fique madura para encaminhar poupanças para a constituição de PPR (Planos de Poupança e Reforma) junto de sectores financeiros privados. José Gomes Ferreira explicou que se trata de pouco menos do que uma burla, pelo menos a avaliar pelo já acontecido noutros países, além de ser um golpe muito grave no princípio da solidariedade que está na base da Segurança Social tal como ela (ainda) existe entre nós. Mais coisas contou e explicou o subdirector de Informação da SIC, especializado em Economia e Finanças e já com abundantes provas dadas, tudo com proveito para quem ouvia: desta vez, assistir ao por vezes detestável «Querida Júlia» tinha valido a pena. É de recear que muito, muito tempo, talvez tempo interminável, venha a decorrer antes que uma surpresa assim se repita: é sabido que a verdade custa a romper as malhas estreitas que a impedem de circular na TV ou noutros media. Pelo que mais apreço mereceu este momento e mais importa registá-lo.



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