Segunda-feira de trevas

Correia da Fonseca

Era o primeiro dia útil do mês, pois que a véspera, o sempre famoso 1 de Abril, recaíra este ano num domingo. O cidadão telespectador, saltado da cama para mais um dia de trabalho, cumprira o quase maquinal gesto de ligar o televisor para que, enquanto cumprisse os diversos rituais da manhã, pudesse ir sendo informado do que acontecia por esse planeta fora, Portugal incluído e provavelmente destacado. E foi então que sobre ele caiu, no breve tempo de três ou quatro minutos, uma saraivada de notícias capazes de gelar o sangue nas veias. Era a taxa oficial de desemprego que atingira os 15%, a mais elevada percentagem de sempre. Era o preço da gasolina que voltara a subir e atingira novo máximo absoluto, o que implicava a retracção do consumo e por consequência o risco de falência de cerca de duas centenas de pequenos revendedores. Era o senhor Ezequiel, pequeno comerciante, que para garantia dos interesses fiscais se via obrigado a adquirir uma nova máquina registadora, coisa para quatrocentos contos na moeda antiga, encargo incompatível com a minúscula dimensão do seu comércio. Era a redução drástica na dedução das despesas de saúde nas declarações do IRS, bruteza que chegaria à percentagem quase apenas simbólica de 10%. Era o corte nos valores e na duração dos subsídios de desemprego; e era também o corte nos subsídios de doença, parece que para estimular os doentes a regressarem rapidamente ao trabalho, método de tratamento e cura verdadeiramente revolucionário na história da medicina. Era a suspensão dos tratamentos a alguns doentes de cancro cuja pobreza não permite suportar o novo custo do transporte para os locais onde tais tratamentos são aplicados. Era, pois, um verdadeiro desfile de horrores, uma rajada de crimes, capaz de envenenar a mais primaveril manhã do mais corajoso telespectador. No início da semana de Páscoa, a três ou quatro dias da quinta-feira da Paixão e da sexta-feira de Trevas, eram já umas verdadeiras trevas que eram friamente despejadas pelo Governo sobre o País inteiro. Apenas com ressalva para as privilegiadas excepções do costume.

 

Quando um homem se põe a pensar

 

Uns dias ou talvez semanas atrás, uns sujeitos aparentemente a arder nas saudáveis chamas do desejo de justiça lançaram a ideia de levar a julgamento antigos governantes que tenham governado mal, isto é, decerto que tenham governado em desfavor dos interesses do povo português que, para lá da paisagem, é verdadeiramente o País. Ao contrário do que poderia supor-se, a ameaça visaria não o primeiro-ministro que promoveu a venda da actividade agrícola por um pouco mais que trinta dinheiros, o abandono do mar português mediante o desmantelamento da actividade piscatória, o enterramento de milhões sob o alcatrão de auto-estradas lindas de ver mas de utilização relativamente escassa, mas sim governações mais recentes. Ora, perante essa onda de ávido justicialismo, põe-se um homem a pensar se não será adequado, mesmo prioritário e urgente, que sejam levados perante a Justiça, a que é exercida nos tribunais e mais ainda a que funciona na consciência dos cidadãos enfim despertos, os que num só dia ou pouco mais lançaram na angústia, se não no desespero e por vezes na tentação da delinquência como única via de sobrevivência imediata, muitos milhares de portugueses. Na verdade, há práticas de governança que se parecem com acções de genocídio, mesmo que se lhes possa conceder a atenuante da involuntariedade, mas também, inevitavelmente e em simultâneo, a agravante de opressão social por motivos de classe ao abrigo de argumentos de natureza ideológica. É que as trevas de que se terão apercebido os cidadãos que ligaram o seu televisor logo pela manhã não vão dissipar-se, sequer atenuar-se, no próximo sábado de Aleluia, quando as cortinas dos templos forem afastadas e a luz do exterior puder passar: pelo contrário, tudo indica que estas trevas se vão adensar ainda mais, sem limite previsível, tanto quanto parecer conveniente aos que as decidiram. Assim, todo o caso poderá ser descrito, no plano das metáforas, dizendo-se que o que faz falta é arrancar as cortinas que condenam o País a uma sinistra penumbra. O que coloca o problema numa questão de mãos.



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