Sem açúcar
Os últimos dias foram férteis em novidades, mesmo se algumas chegaram tresandando a mofo.
Primeiro foi o ministro da Economia – num rasgo de inaudita inspiração – a instar o País a lançar-se no caminho da internacionalização através dos pastéis de nata, trazidos à colacção para exemplificar as potencialidades de afirmação dos produtos nacionais pela sua inegável excelência. Descontando o facto de há mais de três décadas um empresário português ter conquistado os estômagos londrinos com os ditos, ou de na longínqua Macau se vender miniaturas dos mesmos em qualquer quiosque de rua – o que é uma forma de dizer o elementar, ou seja, que onde há portugueses há pastéis de nata – a ideia de Álvaro Santos Pereira até poderia ser interessante, não fora dar-se o caso de todos ou quase todos os produtos para a confecção das «natas» – como chamou aos pastéis num inconfundível tique de 'tia' – serem importados, o que semeia de escolhos o glorioso caminho da internacionalização. Imagine-se o descalabro se as galinhas espanholas se atrasam na postura dos ovos ou se o açúcar escassear no mercado nacional... E se pensarmos nas tripas à moda do Porto, na alentejana sopa de cação ou na caldeirada algarvia, o mesmo problema se levanta: onde está a produção de carnes, de azeite, a frota pesqueira? É por esta e por outras que certas ideias morrem na praia.
Nada disto perturbou Passos Coelho, que instado a pronunciar-se sobre a ministerial incursão pasteleira produziu a frase do ano: «Eu espero que os pastéis de nata possam ter uma grande internacionalização. Eu adoro pastéis de nata». De antologia.
Dias depois foi a vez de Daniel Bessa, economista e antigo ministro do consulado de António Guterres, vir dizer que Portugal deve procurar manter a sua mão-de-obra o mais barata possível para ser «competitivo» na zona euro. Segundo Bessa, o País pode ter futuro nos serviços pós-venda. «Pode ser, por exemplo, nos call centers, que é a escala mais baixa desta área», disse, advogando que as «oportunidades» para Portugal estão na área dos serviços e não na indústria. É o que se chama uma brilhante perspectiva de futuro.
Mais tarde, Passos Coelho voltou a dar o ar da sua graça agradecendo, passe o trocadilho, «a todos aqueles que saem da sua zona de conforto, da sua postura reivindicativa tradicional, e que se disponibilizam (…) para responder aos portugueses tal como os portugueses esperam (...): com seriedade, transparência, previsibilidade e confiança». Trocando por miúdos, agradecia à UGT o facto de esta ter trocado, em sede de Concertação Social, o aumento de meia hora de trabalho por dia que o Governo queria impor via Assembleia da República por um maior número de dias de trabalho não pago.
Também o ex-ministro Bessa voltou à ribalta para se congratular com o resultado do «acordo» explicando de forma lapidar o motivo de tanta satisfação. Em comparação com as novas medidas, disse Bessa, a meia hora extra de trabalho «é uma brincadeira de crianças».
E tudo isto na mesma semana em que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico informava que a taxa de desemprego em Portugal voltou a subir em Novembro, batendo máximos históricos e atingindo os 13,2 por cento, a quarta pior entre os países da OCDE.
E tudo isto ao mesmo tempo que Álvaro Santos Pereira diz estar a pôr no terreno o programa «Portugal Sou Eu», de forma a «mudar as mentalidades». Uma coisa que, ao contrário dos pastéis de nata, terá pouco açúcar e muito edulcorante.