A quem traiu a UGT?

Manuel Gouveia

Não é fácil adjectivar o acto que a UGT cometeu ao assinar o último Acordo de Concertação Social. É evidente que uma palavra surge imediatamente à cabeça – traição! Mas cautela. É evidente que se os dirigentes da CGTP-IN tivessem assinado aquele acordo teriam cometido uma abominável traição, à gloriosa história da Central criada pelos trabalhadores ainda no tempo do fascismo, aos seus princípios e ao seu projecto, e teriam traído todos os trabalhadores portugueses, os que ontem lutaram pela conquista do que agora se pretende oferecer ao patronato, aos que hoje e amanhã sofreriam o acréscimo de exploração que este Acordo, a ser implementado, acarretaria.

Mas o mesmo se pode dizer da UGT? Da central sindical criada pelos patrões, pela CIA e os serviços secretos alemães, cuja fundação foi formalmente patrocinada pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, a troika da contra-revolução e do actual pacto de agressão? De uma central usada ao longo de todo o processo contra-revolucionário como instrumento dos patrões no ataque à contratação colectiva, à legislação laboral, aos salários, à unidade e luta dos trabalhadores? Que fez a UGT de diferente daquilo que foi criada para fazer? Nada. Então, como caracterizar de traição um acto que tem tanto de repugnante como de consequente?

É certo que a UGT aderiu à última greve geral. Mas havia algum espaço para não aderir? Poderia continuar a desempenhar o papel para o qual foi criada se se tivesse colocado fora daquela greve geral? Poderia hoje estar a fazer o papel de «representante dos trabalhadores» nesta fantochada de concertação social, onde os patrões concertaram consigo próprios o incremento da exploração dos trabalhadores? Só tem razão para se sentir traído quem se deixa iludir sobre o que é, de facto, a UGT. É por isso que digo que não assistimos a nenhuma traição, mas sim a uma clarificação.

Está agora nas mãos dos trabalhadores, de todos os trabalhadores, dar a resposta que este acordo merece: incrementar a luta até o derrotar. Com a CGTP-IN, cujo Não é um daqueles onde, como dizia o Vinicius, a razão se agiganta, pois é muito mais do que uma recusa ou um apelo à luta, é a consciência de classe que se eleva.



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