Resultado do golpe nas Honduras

«O crime organizado apoderou-se do Estado»

Homicidio de jornalistas, atentados contra redacções, ameaças contra defensores dos direitos humanos e repressão de manifestantes fazem parte do quotidiano das Honduras dois anos e meio após o golpe de Estado que derrubou o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya.

Desde 2010 já foram assassinados 17 jornalistas

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O último caso de assassinato de profissionais da comunicação social ocorreu na capital, Tegucigalpa, no início da semana passada, e vitimou a jornalista Luz Marina Paz e o seu operador de câmara, Delmer Canales. O veículo onde seguiam – supostamente nem sequer estavam em trabalho, mas a avaliar a aquisição da referida viatura a um… coronel do exército – acabou crivado por mais de 20 balas.

Marina Paz, 39 anos, mãe de duas filhas, era assumidamente contra o golpe de Estado que a 28 de Junho de 2009 interrompeu a legalidade constitucional democrática no país. Nos últimos anos, trabalhou na Rádio Globo, cuja linha editorial se destacou pelo seu carácter antigolpista, e na congénere Cadeia Hondurenha de Notícias.

Foi o próprio ministro da Administração Interna quem admitiu que o homicídio dos jornalistas pode ter motivações políticas, mas, como noutros casos semelhantes, informações divulgadas posteriormente pela polícia indicam que Marina e Delmer terão sido abatidos por desconhecidos afectos a grupos criminosos.

Estes grupos cobram o chamado «imposto de guerra», adiantam as autoridades, e a repórter ter-se-á recusado a pagar.

Tal versão é, no entanto, contestada pelo presidente do Comité para a Livre Expressão das Honduras, Osmán López, que reagindo ao sucedido acusou o Estado de não só não investigar estes casos, como de ser cúmplice para com a impunidade dos que procuram impedir o exercício do jornalismo e das liberdades democráticas.

Acresce que desde de que o presidente Porfírio Lobo tomou posse, em 2010, já foram assassinados 17 jornalistas nas Honduras.

 

Modus operandi

 

A contradizer as suspeitas postas a circular pelas autoridades está igualmente o modus operandi dos assassinos de Marina e Delmer. Os autores do crime terão disparado a partir de motorizadas em andamento, técnica na qual a polícia antimotim e antiterrorista foi adestrada pela congénere colombiana.

Logo após o início do mandato de Lobo, o presidente golpista das Honduras firmou com o então chefe de Estado da Colômbia, Álvaro Uribe, um acordo de cooperação para o «combate ao terrorismo e ao narcotráfico». A formação prática decorrente do acordo bilateral foi inclusivamente saudada por canais de televisão afectos ao poder golpista, que exibiram a destreza adquirida pelos comandos Cobra hondurenhos após intenso contacto com formadores das forças especiais da Colômbia.

Desde a chegada ao território dos militares de elite colombianos, o número de assassinatos e acções semelhantes atribuídas ao do crime organizado cresceu, com particular destaque para os homicídios, os quais excedem já os 82 por cada cem mil habitantes, colocando as Honduras como um dos países com uma das mais altas taxas do mundo nesta matéria.

 

Semana negra

 

Na mesma semana em que pereceram às mãos de mercenários os referidos jornalistas, o diário La Tribuna foi alvo de um atentado. Um funcionário do jornal resultou ferido.

Antes, já um jornalista do La Tribuna havia sido vítima de ameaças e tentativas de assassinato, justamente quando investigava a corrupção na polícia e o assassinato do filho da reitora da Universidade Nacional Autónoma das Honduras.

Posteriormente, o presidente do Comité para a Defesa dos Direitos Humanos (CODEH), Andrés Pavón Murrillo, e alguns elementos da sua equipa, foram ameaçados por bandidos que lhes lembraram «o que aconteceu ao La Tribuna».

No mesmo período, foi assassinado o ex-assessor do ex-presidente Manuel Zelaya para o tráfico de estupefacientes. Alfredo Landaverde, que durante o governo de Zelaya repetiu denúncias contra o tráfico de droga e a corrupção da polícia, foi baleado quinta-feira, 8, em Tegucigalpa.

Do atentado, resultou gravemente ferida a sua mulher, Hilda Caldera, que se encontra em estado crítico.

A culminar uma semana negra no país, uma multidão de professores foi reprimida pela polícia com recurso a canhões de água e gás lacrimogéneo. Os discentes reclamavam no centro da capital das Honduras o pagamento dos salários de 2011 e, em alguns casos, os rendimentos de 2010, devidos a cerca de seis mil profissionais.

Comentando os incidentes violentos, Manuel Zelaya concluiu que «o crime organizado se apoderou do Estado», e considerou que «o seu braço controla todos os mecanismos da justiça».



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