Uma greve necessária, uma luta para continuar

Margarida Botelho (Membro da Comissão Política)

Amanhã, 24 de No­vembro, os tra­ba­lha­dores por­tu­gueses vol­tarão a fazer his­tória. Face à mais brutal ofen­siva de que há me­mória desde o 25 de Abril, a greve geral con­vo­cada pela CGTP-IN será a res­posta in­dis­pen­sável dos tra­ba­lha­dores e do povo.

Dos ob­jec­tivos con­tidos no pacto de agressão subs­crito por PS, PSD, CDS, FMI e UE e no Or­ça­mento do Es­tado para 2012 consta, em pri­meiro lugar, o au­mento da ex­plo­ração de quem tra­balha: o corte nos sa­lá­rios e nas pen­sões; o roubo do sub­sídio de Natal e de fé­rias à mai­oria dos tra­ba­lha­dores e dos re­for­mados; o alar­ga­mento do ho­rário de tra­balho – que pode atingir até 16 dias de tra­balho à borla por ano –; o au­mento dos im­postos sobre o con­sumo e os ren­di­mentos do tra­balho; o corte no in­ves­ti­mento pú­blico; o agra­va­mento dos preços da elec­tri­ci­dade, dos com­bus­tí­veis, das por­ta­gens, me­di­ca­mentos, taxas mo­de­ra­doras, trans­portes pú­blicos; a pri­va­ti­zação de em­presas pú­blicas. Tudo em es­can­da­loso con­fronto com os lu­cros e pri­vi­lé­gios que os grandes grupos eco­nó­micos con­ti­nuam a exibir.

O que pre­tendem é um re­gresso ao pas­sado. Como dizia há tempos um «co­men­tador» num dos inú­meros «de­bates» que pre­en­chem horas de pro­gra­mação te­le­vi­siva re­pe­tindo-se uns aos ou­tros, «é pre­ciso que os por­tu­gueses re­gressem ao nível de vida dos anos 80». Quando fala de «nível de vida» re­fere-se na­tu­ral­mente ao nível sa­la­rial de há três dé­cadas, com custo de vida e ní­veis de ex­plo­ração de­vi­da­mente re­vistos e au­men­tados.

É cada vez mais claro o que pre­tendem: um re­gresso ao pas­sado, ao tempo em que a con­tra­tação in­di­vi­dual era regra im­posta pelo mais forte, em que o ho­rário de tra­balho era pau­tado pelo sol e pela su­prema von­tade do pa­trão, pela fra­gi­li­dade de quem ne­ces­sita de vender a sua força de tra­balho face a quem a pode e quer com­prar.

Pre­tendem o re­gresso à lei da selva e à ex­plo­ração de­sen­freada, num re­tro­cesso ci­vi­li­za­ci­onal de dé­cadas. Ao tempo em que só quem podia pagar ia ao mé­dico, em que aos fi­lhos dos tra­ba­lha­dores es­tava des­ti­nada uma es­cola de se­gunda, para ler e contar (com cer­teza que agora há-de in­cluir in­glês ou alemão téc­nico, para ler as ins­tru­ções das má­quinas sem ne­ces­si­dade de tra­dução), em que se pal­mi­lhavam qui­ló­me­tros a pé porque a rede e os ho­rá­rios dos trans­portes pú­blicos eram in­su­fi­ci­entes. Aos tempos das praças de jorna, agora adap­tadas à «mo­der­ni­dade» do sé­culo XXI.

 

Quanto mais ca­lados, mais rou­bados

 

Como se vê todos os dias nas de­cla­ra­ções dos subs­cri­tores do pacto de agressão, nas en­tre­vistas dos téc­nicos da troika, nas afir­ma­ções do Pre­si­dente da Re­pú­blica e dos co­men­ta­dores de ser­viço, as exi­gên­cias de re­gressão so­cial não têm li­mite nem fim e são para todos.

Quanto mai­ores forem os pro­testos, quanto maior for a adesão à greve geral, mais di­fi­cul­dades se criam à apli­cação de todas e de cada uma das me­didas do pacto de agressão. Me­lhores con­di­ções se criam para con­ti­nuar o com­bate que ne­ces­sa­ri­a­mente con­ti­nuará de­pois de 24 de No­vembro.

Esta é uma greve con­vo­cada na sequência de muitas ac­ções de luta dos tra­ba­lha­dores e do povo por­tu­guês. Uma luta que não abrandou apesar das elei­ções le­gis­la­tivas de há pouco mais de cinco meses. Uma luta contra a po­lí­tica de di­reita dos úl­timos 35 anos que nos trouxe até aqui. Uma luta contra as con­sequên­cias, bem con­cretas e reais, desse pacto de agressão. Uma luta que se tra­duziu em inú­meras ac­ções, de con­tornos e di­men­sões dis­tintas, de tra­ba­lha­dores, po­pu­la­ções, re­for­mados, es­tu­dantes, em lutas con­cretas nas em­presas, nos lo­cais de tra­balho e de re­si­dência e em grandes ac­ções na­ci­o­nais de con­ver­gência – como a greve dos trans­portes do Sector Em­pre­sa­rial do Es­tado ou as ma­ni­fes­ta­ções de 1 de Ou­tubro e de 12 de No­vembro.

Por muitas son­da­gens e es­tudos de opi­nião que os ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial di­vul­guem ma­tra­que­ando a ideia de que os por­tu­gueses estão con­for­mados e re­sig­nados com as me­didas do pacto, a ver­dade é que a in­dig­nação e o pro­testo crescem todos os dias. Dia 24 de No­vembro será um dia de­ci­sivo para mos­trar esse des­con­ten­ta­mento. O dia em que o Go­verno ten­tará contar os que forem tra­ba­lhar como fer­ve­rosos apoi­antes das me­didas da troika. O dia em que mi­lhões de tra­ba­lha­dores – da in­dús­tria e dos ser­viços, do sector pú­blico e do pri­vado, com muita, pouca ou ne­nhuma ex­pe­ri­ência de luta – afron­tarão os medos, a chan­tagem e a re­pressão e mos­trarão aos se­nhores da troika e dos mer­cados que este povo quer e é capaz de cons­truir o seu pró­prio fu­turo.

Um fu­turo que co­meça na re­jeição do pacto de agressão e na exi­gência de um Por­tugal de­sen­vol­vido e so­be­rano.



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