Igreja e o Estado ou «perder peso e engordar»
«Os que lideram o desenvolvimento a partir do comando das grandes empresas e os que o fazem a partir de investimentos solidários, ONG e movimentos sociais compartilham, em grande parte, os mesmos valores fundamentais...» (Paul Singer,
economista católico brasileiro, « A economia solidária»).
«Face ao sofrimento, à violência, à pobreza, à fome, à corrupção, aos abusos do poder, um cristão não pode ficar em silêncio.» (Bento XVI, Papa, 2009).
«Cada vez mais, num sistema capitalista que, abandonado ao seu próprio automatismo económico, ameaça correr rapidamente para a sua própria perda,
o Estado deve tornar-se a garantia do lucro capitalista, a garantia do lucro das classes monopolistas dominantes da burguesia.» («Iniciação à Teoria Económica»,
Ernest Mandel, 1965, Seara Nova).
Grandes são hoje em dia os milagres que o povo português é chamado a venerar. Os banqueiros convertem-se ao «combate à pobreza e à fome» e imploram aos governos que os obriguem a pagar os custos da crise financeira. A NATO pacifica com bombas e «democratiza» o país líbio do petróleo. A hierarquia católica aplaude os novos impostos, cala-se face aos níveis de desemprego e de corrupção e encolhe os ombros perante a derrocada dos grandes valores éticos. Mas não perde o ensejo para reafirmar que só ela «tem vocação» para responder à fome e à miséria e para constituir no País a única alternativa à derrocada social. Para que isso aconteça, naturalmente, vai ser necessário que o Estado laico (?!) emagreça e transfira para o privado os equipamentos públicos; que desmantele toda a rede estatal da Segurança Social, Autarquias Locais, Escolas, Creches, Jardins de Infância, Institutos, Hospitais, Lares de Idosos,etc., etc., e que tudo entregue numa bandeja às IPSS e às Misericórdias. Será, no futuro, a Igreja católica a grande «bolsa de empregos» e o pêndulo das situações laborais. Os seus sacerdotes ensinarão a doutrina às novas gerações. Então, a religião verdadeira estará em condições de desempenhar a sua missão de aconselhar e pacificar as massas pobres, ignorantes, resignadas mas tendencialmente cristãs, educando-as no sentido dos rumos solidários com os ricos e da resignação.
Só, então, o Estado neoliberal e permissivo terá pulso e espaço inteiramente livres. Nada o obrigará a perder o seu tempo com os pobres. Nunca mais se ouvirá falar em «gorduras do Estado». Todo o dinheiro que entrar nos circuitos públicos irá para o financiamento dos negócios das grandes fortunas. A Igreja se encarregará do social.
E as alucinadas teses marxistas da «luta de classes» morrerão de morte natural.
As vergonhas do «lameiro»!
Se as finanças do Estado neocapitalista são «lixo», a moral pública do Estado é «lama». Os ministros entendem que o voto «democrático» lhes dá direito a meterem a mão no bolso do alheio. Roubam aos pobres para enriquecerem os ricos. É de novo a história do Zé do Telhado mas de pernas para o ar…
No meio de tudo isto, o sentimento de Pátria é uma anedota. Os novos patriotas são os grandes patrões que especulam, aumentam os lucros e exportam para os países que mais tarde lhes irão comprar as próprias empresas. Patriotismo é fazer negócio, ser-se esperto e sem escrúpulos, saber conquistar influências, capitalizar e engordar os lucros. Os bispos aplaudem esses heróis.
Deus, ainda é o que menos conta. O conceito presta-se a tudo… e a mais alguma coisa. A hierarquia eclesiástica bem sabe como manipulá-lo. Tanto serve para desmobilizar os cidadãos traídos e enganados, como para dar abrigo aos milionários – homens de paz sedentos do Bem…
Para a Igreja, é a Família o escândalo do imperialismo capitalista mais difícil de ocultar. Na sua fase final, os ricos saqueiam os pobres sem olharem a conveniências. O que lhes importa é ficarem com tudo. Mesmo para os mais devotos, «o resto é conversa».
Melhor é não recordar o velho chavão «Deus, Pátria, Família». Que dor de cabeça ele é agora para o episcopado. A Família é o seu capital tradicional, o salvo-conduto que lhe permite passar todas as fronteiras e ultrapassar todos os riscos. Mas como manter equilíbrios e cultivar santidades quando homens, mulheres, crianças e classe média são esmagadas pelo Poder com as bênçãos cristãs?
Aos bispos impõe-se esta reflexão. Que pensem mas… depressa. O tempo urge. Aqueles que mentem ou fazem da mentira a sua profissão não se podem deixar envolver pelos seus próprios enredos.