Banco irlandês pode perdoar dívidas
O Allied Irish Bank Plc (ALBK), um dos maiores bancos irlandeses intervencionados pelo Estado, anunciou a intenção de utilizar parte dos fundos públicos de recapitalização para acudir às muitas famílias que não conseguem pagar as prestações, admitindo perdoar parte das dívidas.
A aparente generosidade resulta no entanto de um contexto que não deixa alternativas aos bancos. Segundo refere a agência Bloomberg (27.07), o mercado imobiliário irlandês caiu 40 por cento desde o pico de 2007, de acordo com os dados oficiais, mas os especialistas prevêem que a queda atinja, este ano, os 55 por cento. Ou seja, de nada serve executar as hipotecas em incumprimento, dado que o banco não poderá reaver o seu valor vendendo o bem no mercado.
Ora, num país onde o Produto Interno Bruto caiu 15 por cento e o desemprego triplicou para 14 por cento desde 2007, o número de casos de incumprimento não pára de aumentar.
Assim, mais de um em cada dez empréstimos para compra de habitação ou registam atrasos ou já foram reestruturados, normalmente por via da redução da prestação ao pagamento de juros durante um período determinado. Segue-se que desde Setembro de 2010, o número de hipotecas com atrasos de mais de 90 dias disparou de 4,8 por cento para 7,8 por cento, em Junho último.
Perante esta situação, o presidente do ALBK, David Hodgkinson, declarou dia 24, que pretende utilizar parte dos cerca de 20 mil milhões de euros injectados pelo Estado, na resolução dos casos em que só o perdão de dívida pode ser solução para as partes, mesmo que o termo não seja do seu agrado: «Há algumas pessoas que não estão em condições de pagar – não podem pagar – a totalidade dos montantes que devem», reconheceu o presidente do ALBK. «Eu prefiro chamar a isto reestruturação da dívida. O perdão implica um certo perigo moral. Penso que é importante não entrarmos nesse campo».
Recorde-se, a propósito, que o governo irlandês já injectou 64 mil milhões de euros no sistema financeiro falido, desde o início da crise, o que provocou a bancarrota do país e o descalabro da economia. Porém, aqui, banqueiros do tipo de Hodgkinson não vêem quaisquer «perigos morais».