Milhões à fome no Corno de África
Quase 11 milhões de pessoas necessitam de ajuda alimentar de emergência na Somália, Quénia e Etiópia, das quais três milhões são crianças. O alerta foi lançado nos últimos dias por diversas agências das Nações Unidas, as quais estimam entre 500 mil e um milhão o total de menores em risco de morte devido à desnutrição severa na zona do Corno de África.
«Na região epicentro da catástrofe os EUA têm promovido intensos combates»
A Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), por seu lado, afirma que 1500 pessoas chegam diariamente à região entre a Somália, o Quénia e a Etiópia, e que o campo de refugiados de Dabaad, considerado o maior do mundo e projectado para 90 mil pessoas, já acolhe cerca de 300 mil.
A guerra na região, a maior seca dos últimos 60 anos e os preços crescentes dos alimentos, alvos da especulação bolsista, são apontados como causas da catástrofe, mas o relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Olivier De Schutter, foi mais incisivo e acusou as grandes potências capitalistas de terem doado menos de metade dos fundos prometidos para fazer face à situação.
Mais contundente, ainda, é o jornalista e editor da página Blackagendareport.com, Glen Ford, para quem a região epicentro da catástrofe é a mesma onde os EUA têm promovido intensos combates contra o grupo Al Chabab.
Ford sustenta que os bombardeamentos com aviões não-tripulados e o armamento de milícias adversas à organização islâmica, realizados nos últimos dois anos, agravaram as consequências da seca na região.
A agricultura e a pastorícia tornaram-se impossíveis levando ao êxodo de centenas de milhares, conclui com base em investigações recentemente publicadas no referido sítio.
Para Ford, a desintegração do governo da Somália e a sua substituição por um executivo fantoche – apenas sustentado por soldados do Burundi e Uganda, treinados e armados por Washington ao abrigo de um programa orçado em cerca de 45 milhões de dólares – contribuiu, igualmente, para o actual cenário extremo.
Flagelo continental
Paralelamente, a Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) voltou a elevar para mais de mil milhões o total de seres humanos mal-nutridos. De acordo com o subdirector da organização, David Harcharik, a África subsaariana foi a região que mais contribuiu para o aumento dos famintos.
Cerca de um terço dos habitantes do subcontinente (mais de 220 milhões de pessoas) encontra-se nesta situação, fruto, acrescentou Harcharik, da incorporação, nos últimos 15 anos, de outros 45 milhões de africanos no trágico contingente.
A FAO sublinha também que a ajuda alimentar diminuiu sempre desde 1997, passando de 15 milhões de toneladas para os actuais 6,8 milhões, facto a que acrescem as políticas simultaneamente sovinas e predadoras dos chamados «países doadores».