O demagogo

Jorge Pires (Membro da Comissão Política do PCP)

Logo que foram sendo co­nhe­cidos os nomes dos mi­nis­tros que hoje in­te­gram o Go­verno do PSD/​CDS-PP, per­cebeu-se ra­pi­da­mente que, re­la­ti­va­mente a al­guns deles, es­tava mon­tada toda uma cam­panha a partir dos media, no sen­tido de va­lo­rizar a par­ti­ci­pação de al­guns ditos in­de­pen­dentes, apre­sen­tados como téc­nicos com­pe­tentes, sem res­pon­sa­bi­li­dades na crise que o País atra­vessa, li­bertos de pres­sões par­ti­dá­rias, com uma visão menos for­ma­tada das causas e so­bre­tudo com so­lu­ções para os pro­blemas.

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O ob­jec­tivo foi muito claro desde o início: es­conder as reais de­pen­dên­cias destes in­di­ví­duos face aos man­dantes da po­lí­tica de di­reita em Por­tugal e apre­sentá-los como al­guém que surgiu agora (talvez saídos da «lâm­pada de Ala­dino») para exe­cutar um pro­grama pró­prio e não aquele que está a ser im­posto ao País pela troika. Chega mesmo a ser co­mo­vente a in­ge­nui­dade que lhes é atri­buída no plano po­lí­tico.

Entre estes, en­contra-se o ac­tual mi­nistro da Edu­cação, Nuno Crato, in­de­pen­dente, in­di­cado pelo PSD, ex-pre­si­dente da Co­missão Exe­cu­tiva do Ta­gus­park, cuja es­tru­tura ac­ci­o­nista é com­posta por ins­ti­tui­ções e em­presas entre as quais des­ta­camos: a Câ­mara de Oeiras, a PT, o BCP e o BPI.

In­de­pen­dência re­la­ti­va­mente a quê e a quem? Apre­sen­tado como um homem que de­fende o rigor e a qua­li­dade, exi­gente em tudo aquilo em que se mete, mas que sobre a Edu­cação terá dito, como foi de­nun­ciado pu­bli­ca­mente por al­guém que o co­nhece muito bem, «ter poucas ideias», não perdeu tempo e, logo na pri­meira in­ter­venção pú­blica como mi­nistro da Edu­cação, mos­trou que a sua prin­cipal ca­rac­te­rís­tica re­side na forma hábil como pro­cura con­duzir as pes­soas ao ob­jec­tivo de­se­jado, uti­li­zando os seus con­ceitos de bem, mesmo quando lhe são con­trá­rios. Foi na As­sem­bleia da Re­pú­blica du­rante o de­bate do pro­grama do Go­verno.

Esta aposta de Passos Co­elho em Nuno Crato faz todo o sen­tido quando o PSD, agora no Go­verno, não pode es­conder mais uma pos­tura do faz de conta como quando se colou, apenas por ra­zões tác­ticas, à justa luta dos do­centes e ou­tros pro­fis­si­o­nais da edu­cação, dos es­tu­dantes, pais e au­tarcas.

Era pre­ciso en­con­trar al­guém que, com um dis­curso bem ela­bo­rado sobre ma­té­rias re­la­ti­va­mente às quais existe um grande con­senso (rigor, qua­li­dade, exi­gência), ti­vesse a mes­tria de mudar o es­sen­cial sem que, numa fase ini­cial, em que pro­cu­rará pro­longar ao má­ximo as ex­pec­ta­tivas cri­adas re­la­ti­va­mente ao que vai fazer no Mi­nis­tério, trans­pa­reçam as suas reais in­ten­ções.

De­ma­gogo, do mais re­quin­tado que temos visto, se­nhor de uma grande ca­pa­ci­dade em fugir às ques­tões que lhe são co­lo­cadas, Nuno Crato não he­sitou, pe­rante as crí­ticas de que foi alvo por parte do Grupo Par­la­mentar do PCP, em in­vocar a sua pseudo ins­pi­ração no pen­sa­mento de Bento Jesus Ca­raça sobre a cul­tura in­te­gral do in­di­víduo, pro­cu­rando desta forma es­conder aquilo que é uma evi­dência no me­mo­rando da troika e no sub­misso pro­grama do Go­verno – o apro­fun­da­mento de um ca­minho per­cor­rido ao longo dos úl­timos anos, que tem trans­for­mado a es­cola num ins­tru­mento de es­tra­ti­fi­cação so­cial à saída tal como se ve­ri­fica já à en­trada.

 

Re­pro­dução das de­si­gual­dades

 

Bento Jesus Ca­raça me­rece mais res­peito, pelo homem de in­te­li­gência su­pe­rior que foi, mas também pelo le­gado que nos deixou, no­me­a­da­mente en­quanto edu­cador.

São muitas as ori­en­ta­ções de­fi­nidas no pro­grama do Go­verno que apontam cla­ra­mente, no quadro da des­va­lo­ri­zação e pri­va­ti­zação da Es­cola Pú­blica, para um en­sino cada vez mais de­pen­dente dos in­te­resses do mer­cado de tra­balho pri­vi­le­gi­ando o en­sino da téc­nica em de­tri­mento da cul­tura geral, com al­te­ra­ções cur­ri­cu­lares que pro­movem a re­pro­dução das de­si­gual­dades, tra­tando a edu­cação como um ins­tru­mento de in­te­gração na ca­deia de pro­dução ca­pi­ta­lista, um en­sino cada vez mais caro e eli­ti­zado, com as elites a apossar-se cada vez mais de uma edu­cação que sis­te­ma­ti­ca­mente é ne­gada às massas tra­ba­lha­doras, como forma de se per­pe­tu­arem.

O que o pro­grama do Go­verno aponta é para a con­so­li­dação da trans­for­mação do sis­tema edu­ca­tivo no «ins­tru­mento mais po­de­roso de con­di­ci­o­na­mento das pes­soas para serem, das nove às cinco, pro­du­tores in­dus­triais, dis­ci­pli­nados e obe­di­entes, e de­pois desse ho­rário con­su­mi­dores fe­rozes».                                  

O que o pro­grama do Go­verno impõe é uma es­cola li­gada ao modo de pro­dução ca­pi­ta­lista que seja le­gi­ti­ma­dora de hi­e­rar­quias de poder e saber. 

Bento Jesus Ca­raça, a quem Crato diz ter «ido buscar ins­pi­ração», sempre com­bateu o mo­no­pólio cul­tural das classes do­mi­nantes, des­ta­cando sempre a im­por­tância da de­mo­cra­ti­zação dos sa­beres mais eru­ditos, apon­tando de forma muito clara o valor e o papel do in­di­víduo na so­ci­e­dade, in­se­rindo as ac­ti­vi­dades in­di­vi­duais nas re­a­li­za­ções co­lec­tivas.

Nuno Crato ainda não per­cebeu que uma das prin­ci­pais li­ções que Bento Jesus Ca­raça nos deixa é a da co­e­rência entre as pa­la­vras e as ati­tudes, coisa que lhe pa­rece faltar.

Já agora e pa­ra­fra­se­ando o ma­te­má­tico e pe­da­gogo, cada homem «vale tanto pelo que é como por aquilo contra que é».



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