Inevitável, só a luta!
Na véspera e no dia das eleições, dando seguimento a uma linha de identificação e de apoio com o rumo de declínio nacional imposto ao País nas últimas décadas e de incentivo aos partidos da política de direita para que assumissem em conjunto a submissão às imposições da troika, o Presidente da República exerceu uma inaceitável chantagem sobre os eleitores ao afirmar que quem não votasse – sendo que o sr. Presidente não se coibiu de expressar que esse voto estava como que limitado aos partidos da troika –, não poderia, após as eleições, ter opinião ou até protestar face ao mais que certo agravamento da situação económica e social do País.
É com o PCP que os trabalhadores contam para resistir
Duma penada, os que votassem na troika nacional (PS, PSD e CDS) estariam a sufragar as medidas que esses mesmos partidos esconderam dos portugueses e os outros, os que não votassem, ficariam impedidos de manifestar a sua insatisfação, indignação e protesto face às consequências directas dessas mesmas medidas.
A preocupação das classes dominantes com a indignação e o protesto vem de trás. Em plena campanha eleitoral, já Marcelo Rebelo de Sousa ia dando o mote e outros entretanto seguiram-lhe as pisadas na tese de que o PCP se tinha auto-excluído da área da governação (ou arco do poder). Mas ao PCP, segundo ele, cabia um importante papel após as eleições: canalizar, enquadrar e conter o descontentamento, o protesto e a luta impedindo dessa forma que ela se radicalizasse de forma desordenada e incontrolada.
Duma penada instituía-se a tese de que o PCP não ambicionava o poder, de que a sua acção e intervenção se resumia à agitação e ao protesto, omitindo a sua natureza e projecto e escondendo as suas propostas e políticas alternativas e ao mesmo tempo condicionava-se a sua autonomia e acção próprias.
Passadas as eleições, Portugal tem um novo governo composto por pessoas jovens, descomprometidas, com capacidades técnicas assinaláveis, à margem dos aparelhos partidários e da chamada classe política tradicional. Procuram, desta forma, os comentadores e analistas de serviço, esconder que estes foram os escolhidos apenas porque estão em condições de levar por diante, rapidamente e em força, as políticas de submissão e agressão impostas pela UE e pelo FMI.
Para que tal aconteça sem grandes engulhos, hoje é assumida às claras uma linha de ataque à Constituição, vista como um estorvo para os seus calendários e objectivos. Conscientes das consequências que terão para o País e para a imensa maioria dos portugueses as medidas que querem impor a toda a velocidade, dirigentes partidários, analistas, comentadores e politólogos de serviço e ao serviço dos interesses do poder económico, desdobram-se em análises e apelos ao bom senso, ao sentido de responsabilidade dos portugueses, à necessidade de uma união nacional para salvar o País do desastre.
O mais forte obstáculo aos objectivos do capital
Apostam forte na resignação e na passividade dos portugueses face ao que aí vem. Não escondem os propósitos que têm, nem que para tal tenham de criar as condições para se limitar liberdades e direitos constitucionalmente consagrados, para se criminalizar a luta e impor o medo. E vão fazendo caminho para a criação do caldo de cultura que venha a permitir a consideração daqueles que lutam pelos seus direitos como subversivos e antipatrióticos.
Mais recentemente, o insuspeito Rui Machete juntou-se ao coro e apelou à razoabilidade do PCP na organização da resistência e da luta. Procura, também ele, contribuir para o condicionamento da luta dos trabalhadores, das populações e da acção e intervenção do PCP.
Pergunta-se: porquê tanto medo e tanto apelo, num momento e numa conjuntura de governo estável, assente numa ampla maioria parlamentar a que se junta o PS, também ele comprometido e submetido aos objectivos da troika, aos quais se junta o presidente Cavaco Silva? Porquê tanta preocupação com o PCP e o seu papel?
Na verdade, é porque sabem bem que a luta terá um papel determinante e constituirá o mais forte e intransponível obstáculo aos seus objectivos e calendários. Sabem que é no PCP e com o PCP que os trabalhadores e as populações contam para resistir à ofensiva em curso e para mobilizar consciências para a construção duma alternativa política assente na indispensável ruptura com as políticas de direita e de criminosa submissão aos interesses estrangeiros.
O que não seria razoável nem expectável nem admissível era que o PCP abdicasse da sua natureza, princípios e projecto para alinhar no coro da submissão aos interesses do grande capital e das potências estrangeiras.