Branco é...

Jorge Cordeiro

A notícia de que uma conhecida jornalista, que deteve até há algum tempo responsabilidades de edição política num dos principais canais de televisão, assumiu funções na área da comunicação do governo não é condição bastante para causar surpresa. Poder-se-ia até dizer, citando um conhecido provérbio popular, que pela força das evidências da cor dos ditos continua a não ser desmentido que branco é galinha o põe.

E sem exageros se poderia acrescentar, respeitando até a opção pelos tons e cores proverbiais enunciados, que assim fica tudo mais claro: para lá do faz-de-conta, assume-se o que se é por livre opção, sem continuar a engrossar a estante dos que continuam oficiosamente a exibir aquela falsa isenção de informação e independência de comentário que à força nos despejam em cada dia que passa.

Tudo tão mais claro e transparente que o exemplo deveria ser seguido por outros: a começar nos Negócios Estrangeiros por aquela «especialista» em assuntos do Médio Oriente que, a partir de um qualquer ponto do deserto ou de perigosa zona de conflito, sempre sem enganos quanto ao campo que escolhe, nos inunda de propaganda sionista que, seguramente, alguém investido na qualidade de agente da Mossad não promoveria com idêntica eficácia; nas Finanças, aquela outra teorizadora de assuntos europeus que, por detrás de elaborados comentários e extensos artigos, credibilizados por aquele ar de quem trata comissários ou chefes de governo europeus «tu cá, tu lá», não passa de uma câmara de eco do grande capital europeu, seguramente mais eficaz porque formalmente não investida em porta-voz dos seus interesses; na Defesa, aquela ainda outra visita de nossas casas que, a partir das imediações da Casa Branca, nos vai relatando em forma de reportagem o que os serviços de informação dos Estados Unidos querem que por cá se desconheça sobre os seus projectos belicistas e ambições imperialistas.

Tudo tão mais claro e evidente quanto, passando da paleta de cores para o domínio da aritmética, dois mais dois serem quatro. Como se vê com os esclarecedores posicionamentos, e reposicionamentos, de Balsemão ou Belmiro, de facto os verdadeiros editores do que querem que seja visto ou lido.

 



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