Estes gregos serão loucos?

Correia da Fonseca

Muitos recordam decerto que nas páginas dos álbuns de BD que narram as aventuras de Astérix e Obelix, heróis da resistência de um grupo de gauleses à invasão das poderosas legiões de Júlio César, um dos romanos, talvez o próprio César talvez qualquer outro, comenta, abismado com o aparente desvario daquela obstinada resistência perante um poder militar aparentemente esmagador: «Estes gauleses são loucos!». O desenrolar da estória informará o leitor de que a aparente loucura gaulesa tinha afinal razão, que a liberdade dos resistentes e os seus direitos sairiam vencedores. Mas o motivo por que a obra de Goscinny e Uderzo é para aqui chamada é que, olhando no televisor, dia após dia, imagens das enormes manifestações populares que na Grécia apelam à recusa das imposições ditadas pelos factuais patrões da União Europeia, e confrontando essa gigantesca recusa com o que a mesma TV me conta acerca do estado terrível da economia e da finança gregas, fico a formular a mim próprio, já que a televisão não me ajuda a encontrar resposta, uma pergunta como que inspirada nas antigas leituras dos «álbuns do Astérix»: estes gregos serão doidos? Porque, em verdade, é para a sugestão de que milhares de cidadãos gregos perderam o seu perfeito juízo e embarcaram na desvairada ilusão de que poderão vencer os modernos romanos apostados em subjugar a inteira Europa que aponta a mitigada informação que a televisão me fornece. Mitigada, talvez mesmo nula, no que respeita às razões que para além da indignação fazem mover toda aquela gente. Mitigada ou omissa, também, quanto às raízes da chamada Crise Grega, o que acaba por sugerir a responsabilização do povo e, paralelamente, a inocentação de outros, muito mais responsáveis mas muito mais ocultos e protegidos pela generalidade da comunicação social que da Grécia se vem ocupando.

 

Talvez, quem sabe?

 

Na verdade, para além do «folclore» seriíssimo, dramático, das manifestações que vêm acontecendo na Grécia, a TV nada de substancial me diz acerca das circunstâncias que conduziram à situação actual. Na minha memória, que neste caso não tem andado muito distraída, guardo a informação de que os trabalhadores gregos acedem à situação de reforma antes de atingirem os sessenta anos de idade, o que parece implicar um elevado encargo para o Estado. Também guardo uma outra informação que me parece de tal modo pasmosa que venho procurando confirmá-la: a de que, enquanto Portugal adquiriu os dois submarinos que tanto deram que falar e talvez ainda dêem mais, a Grécia encomendou dez, nem menos. Também vendidos pela Alemanha, é claro. Também tenho ideia, sim, e desta vez não graças à TV, que a Grécia suscitou há algum tempo o desagrado da União Europeia, da NATO e dos Estados Unidos, quando se dispôs a reduzir as suas despesas com armamento. Entende-se, naturalmente: corte-se nas reformas, nos apoios sociais, na saúde e na instrução, mas não se bula nas armazinhas cuja venda é o pão para a boca de círculos poderosos de aquém e além Atlântico. Em compensação, pode o Estado grego vender o seu património ainda disponível, isto é, entregar a privados os negócios dos correios, das águas, dos caminhos-de-ferro. Até já li, em legenda na TV ou em letra de forma na imprensa, que alguém propôs que a Grécia vendesse a privados algumas das suas ilhas, já que as tem muitas e lindas. Ora, o que neste quadro se ignora é o pensamento dos que se obstinam em recusar o generoso auxílio europeu prestado em troca, compreensivelmente, do que na Grécia ainda reste ao povo grego, isto é, do remanescente do património público. E aqui se nota uma ausência terrível na informação que a TV (e não apenas ela, é certo) nos fornece: é que aqueles milhares que nas ruas e praças gregas gritam «não!» à rendição, que defendem os direitos do povo contra os direitos dos créditos, têm cabeças, que nós bem as vemos nas imagens que da Grécia vêm, e é provável que as usem para pensar. A questão é: o que pensam elas? Não no-lo conta a TV, não no-lo confidenciam sequer os outros media. Talvez os manifestantes tenham razões. Talvez até, quem sabe?, tenham razão. Sendo certo que essa inegável omissão viola os deveres da tal informação honesta e isenta de que tanto se ouve falar mas talvez pouco se veja. Afinal, talvez os gregos possam não ser loucos. E é uma pena que não possamos saber, com factos e argumentos de ambos os lados em confronto, quem é que a longo prazo se revelará mais louco.



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