Tempos de guerra

João Frazão

A brutal ofensiva ideológica a que o povo português está sujeito está a atingir limites que, seguramente, qualquer um de nós dificilmente poderia imaginar.

Tendo com objectivo central veicular a ideia de que não há alternativa ao rumo das últimas três décadas, anda para aí toda a corte de espertos e peritos em tudo e em coisa nenhuma, qual picaretas falantes (a expressão não é minha, mas é tão apropriada que não resisto), pegando na teoria dos mais variados e criativos ângulos, para chegarem todos à mesma conclusão.

Nesta fase, os que ontem afirmavam que se não fossem os Orçamentos do Estado – que era imperioso aprovar -, o PEC 1 – que era indispensável apoiar -, o PEC 2, e os PEC's seguintes, que se tornava incontornável ratificar e aplaudir, esses mesmos, dedicam-se a argumentar sobre as vantagens do acordo agora subscrito pela Troika nacional (PS, PSD e CDS) com a troika estrangeira (FMI, BCE e UE) e sobre a forma de o aplicar.

Vem toda esta prosa a propósito de um debate na Rádio Renascença, em que interveio João Duque, professor de Economia, e de quem se diz ser ministeriável no novo elenco governativo.

Diz a doutoral figura que «é preciso que as pessoas entendam que o esforço colectivo que estamos a fazer é mais importante que os direitos individuais», sendo necessário portanto, «travar o recurso a instrumentos como greves injustificadas e manifestações que não trazem qualquer resultado».

É que, em «tempos normais» isso até seria aceitável, mas «em tempos de guerra, e isto são tempos de guerra», é preciso deixar de lado certos egoísmos.

João Duque, verbaliza de outra maneira o que dizia Manuela Ferreira Leite no seu tempo e o que anda por aí em surdina – os tempos são de excepção e logo até podemos «suspender a democracia» pelo menos nos que às liberdades e ao direito à luta e ao protesto diz respeito, por meia dúzia de meses ou mais.

Numa coisa estaremos de acordo com João Duque, seja ele ou não contemplado com um lugar mais destacado à mesa do Orçamento.

Estes são tempos de guerra. Guerra contra este caminho que, a não ser travado, nos vai levar ao desastre. Guerra que exige a intervenção de todos os trabalhadores, em defesa dos direitos colectivos e contra os privilégios do grande capital. Guerra sem quartel, que ele sabe, como bem revela nestas afirmações, ser o principal obstáculo aos seus intentos!



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