Interesses de classe
Caro leitor, fiz um estudo de enorme relevância, digno de fazer parte dos anais da ciência, quem sabe merecedor de prémio Nobel de qualquer coisa. Em defesa do avanço do conhecimento científico aqui me declaro e, tendo-o feito, peço desculpa se alguém chegou a uma mesma conclusão, dando-se ao trabalho de estudar o mesmo objecto, tendo a mesma perspicácia e perseverança. Desculpem-me o que poderá parecer uma arrogância científica, o que acontece é que concluí que para a imprensa dita de referência há deputados portugueses no Parlamento Europeu (PE) que o são e outros que, ou não são, ou são menos. Passo a explicar. Neste período pré-eleitoral tenho assistido ao desunhar dos deputados em declarações e artigos de opinião que incidem sobre temas de candente actualidade, dizem os jornais que as albergam, bem entendido, não me cabe a mim avaliar tal relevância. Dediquei-me antes a artes quase aritméticas, folheando jornal a jornal, revista a revista, artigo a artigo, notícias, reportagens, entrevistas e outros mimos semelhantes. Também assisti a muitos programas televisivos, escutei alocuções radiofónicas, não fosse alguma coisa da imprensa escrita escapar-me. Depois de uma pesquisa de tamanho fôlego, aqui fica a primeira conclusão que cabe revelar: quase todos os partidos com deputados no PE têm um ou mais do que um deputado com artigo de opinião na imprensa. Elisa Ferreira (PS), Vital Moreira (PS), Diogo Feio (CDS/PP), Miguel Portas (BE), Rui Tavares (BE) são apenas alguns dos que matutinamente ou semanalmente nos transmitem a opinião na imprensa dita de referência. Antes que o leitor descredibilize este estudo, dizendo que faltam os deputados do PCP, porque não os encontra nas mesmas páginas que os demais, pode encontrá-los no Avante!. Sim, se ler regularmente esta secção já terá notado que Ilda Figueiredo e João Ferreira têm aqui presença assídua. Sobre os temas abordados, uma vez mais sublinho, não me ocupei da sua relevância nem da sua expressão de classe. Além disso, trata-se de jornais de um país onde a democracia é quem mais ordena e para a qual os jornais muito contribuem com os seus critérios de rigor e idoneidade inquestionáveis.
Por entre tantas leituras, visionamentos e escutas áudio, decidi introduzir um tema de importância actual, o dito «resgate» a Portugal, não para avaliar o que cada um diz ou escreve mas antes a sua presença na imprensa. O PE teve na semana passada um debate sobre a «crise das dívidas soberanas e a resposta da UE», onde deputados de todos os partidos portugueses intervieram. Lendo a imprensa parece que apenas Paulo Rangel (PSD) e Edite Estrela o fizeram, ao que parece para dizer amém ao pacto de submissão que as troikas (PS, PSD e CDS/PP por um lado e BCE, Comissão Europeia e FMI por outro) nos querem impor, disfarçando com uma suposta crítica à fixação da taxa de juros a pagar em 5,5% e 6%. Não se preocupe o leitor mais dado a rigores, não se trata de uma crítica, apenas de um apontamento quantitativo ligado ao que cada um de nós terá de pagar para além daquilo que já pagou e irá continuar a pagar com o seu trabalho. Para aqueles que são dados a conspirações e acham que os deputados do PCP são discriminados, tenho a dizer-lhes que não têm do que se queixar, o Avante! dá aqui nota da intervenção da Ilda Figueiredo «contra o pacto de submissão e agressão» que «castiga a população portuguesa em troca de um empréstimo pago a juros mais elevados do que o BCE pratica habitualmente» (o BCE empresta à Banca a 1% apenas).
Também me dediquei a quantificar notícias ou reportagens sobre o trabalho realizado. Também aqui não foi difícil chegar a uma conclusão, a mesma que antes, todos os deputados vêem o seu trabalho reconhecido e valorizado. Uns mais do que outros, nem de outra forma poderia ser, há coisas de grande importância e outras nem tanto. Os jornais em que tal trabalho é referido também são diferentes, os deputados do PCP no Avante! e os outros na restante imprensa.
Conclusão: por trás de cada declaração ou opinião sempre existe uma expressão de classe. É evidente que os deputados do PCP expressam o interesse da classe trabalhadora, dos desempregados, dos reformados, dos jovens que procuram emprego e não conseguem, dos estudantes, dos pequenos agricultores e dos pescadores, das PME. E não é para dar expressão a estes interesses que os grupos económicos detêm jornais.