Um recado vindo de longe

Aurélio Santos

«Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalo e Ingleses,
possam dizer que são para mandados mais do que mandar os Portugueses…»

(Os Lusíadas, Canto X, estância 152)


Este recado de Camões deixado há mais de 500 anos, justamente pouco antes de a soberania e independência de Portugal serem postas em causa, são um apelo a que os portugueses não admitam que Portugal seja tratado como Nação servil.

À época, o então regente do reino, Cardeal D. Henrique, e parte da aristocracia portuguesa capitulavam, apoiando e até defendendo a entrega do nosso País ao rei de Espanha.

Diz-se que a História não se repete – mas as situações repetem-se por vezes ainda que em contextos diferentes.

A troika não entrou pelo Caia, aterrou na Portela. Não fundeou em Cascais, assentou no Terreiro do Paço. Não foi o Duque de Alba mas o FMI, o BCE e os representantes da Comissão Europeia. Não encontrou um exército a opor-se-lhe na batalha de Alcântara, mas teve a recebê-los o PS o PSD e o PP, de braços abertos e olhos fechados.

Hoje como então, querem que os destinos de Portugal deixem de ser decididos pelos portugueses.

Hoje como então, querem que os interesses de Portugal fiquem subjugados aos interesses dos senhores da Europa, do FMI, com os ditames do capitalismo que domina a Europa com a sua mão de ferro.

E tal como então, Portugal – Nação soberana e independente, está sob a ameaça de se tornar uma nação «vassala», governada do exterior, tendo como governo meros executores de políticas decididas por outros que não nós, portugueses, por interesses que não são os nossos, os de Portugal.

A Europa do Tratado de Roma, a Europa da carta dos direitos sociais, que se proclamava solidária, deu lugar a uma Europa adversa, onde os números dos interesses económicos prevalecem sobre os interesses e os direitos das pessoas.

É urgente que este País, esta Europa, deixem de ser governados por «aqueles que, como dizia Camões:

«Amam somente mandos e riqueza/Simulando justiça e integridade;/Da feia tirania e de aspereza/Fazem direito e vã severidade…

(Os Lusíadas, Canto IX, estância . 28)



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